Sou calvinista. Creio – como os neocalvinistas holandeses – que a cosmovisão calvinista é em si mesma, por se tratar de uma visão abrangente, que engloba todas as esferas da vida humana e as submete ao Senhorio de Cristo, a “worldview” que melhor compreende a realidade. Porém, não sou um calvinista acrítico, que abraça irreflexivamente  a uma proposta, por melhor que pareça. O filósofo calvinista James K. A. Smith descreve bem o que está implícito em algo que ele chama de “orgulho neocalvinista”. Ao invés de um “entusiasmo santo acerca de um compromisso renovado com o Senhor em suas Escrituras – no sentido de uma relação mais profunda que o trazia de volta para a Palavra, com os novos olhos e uma alegria renovada”, o que vemos no orgulho neocalvinista, “às vezes soa como se você tivesse alcançado um conhecimento novo e secreto, o que, de alguma forma, lhe daria licença para zombar daqueles que não o têm. Espero que receba isso em amor, porém, não estou muito feliz com essa sua postura”.

Longe desse orgulho teológico, o que está em jogo nestas palavras é uma contribuição ao processo de levar cativo todo o nosso pensamento à obediência a Cristo (2Co 10.5). Em termos metodológicos, acredito que isso pode ser feito através do reconhecimento e da obediência ao princípio da soberania de Cristo sobre todas as esferas da
existência. Tão somente a compreensão dessa soberania criacional fornecerá as condições de possibilidade para a elaboração de uma filosofia social reformacional.

Pensando justamente nessa necessidade teológica, que neste capítulo reconstruirei a biografia de três vultos do calvinismo moderno. Suas trajetórias se revestem de valor ainda hoje para nós em razão da conceitografia que desenvolveram a partir dos desafios contextuais que enfrentaram. Mesmo assim, o processo de construção teológica dessa filosofia social por Calvino não foi um caminho suave e sem conflitos. Ainda que ele seja o primeiro exemplo de uma iniciativa histórica bem-sucedida do conceito reformado de cultura, é preciso destacar os desafios que ele enfrentou. Na verdade, em sua primeira tentativa de reforma sociocultural em Genebra, Calvino alcançou um grande fracasso. Quando, finalmente, firmou raízes em Genebra, em 1536, Calvino lançou as bases da reforma do culto e
dos costumes da cidade.

Os membros do Conselho civil pediram “O processo de reforma social nos ensina uma lição preciosa: o cuidado necessário ao tentarmos impor nossa fé a uma sociedade civil.” para que o reformador escrevesse um documento em formato de artigos, com a finalidade de instituir um princípio unificador dos cidadãos genebrinos com base na fé cristã. Em meio a várias considerações a respeito do culto, da pregação e da Santa Ceia, Calvino insistiu que a disciplinarização dos costumes era condição incontornável para o sucesso da reforma social. Para tanto, foram
criados “órgãos encarregados de exercer esta disciplina. Instituiu, em primeiro lugar, um ministério de leigos, espécie de ‘vigias’ de quarteirão, que anunciam já, sem instituí-los formalmente, os anciãos (convocados a formar mais tarde o Consistório). Em segunda instância somente é que vêm os pastores e a assembleia”.

Genebra experimentará por alguns anos aquilo que Michel Foucault chamará futuramente de “sociedade disciplinar” ou “governo pastoral”. Com essas medidas, Calvino cometeu um dos três equívocos clássicos no processo de transformação de uma sociedade de um ponto de vista cristão, a saber: a imposição coercitiva da fé aos membros de uma sociedade. Contudo, o que precisa ficar evidente agora é que o reformador suíço sucumbiu à tentação de impor costumes cristãos aos cidadãos de Genebra. O resultado não poderia ser outro: a oposição irada às reformas propostas. Conservadores,  libertários, humanistas e nacionalistas religiosos se colocaram em peso contra as medidas disciplinares tomadas pelo Conselho de Genebra, por orientação de Calvino e seus companheiros.

A confusão foi tamanha, que o Conselho tomou uma medida diametralmente oposta: complementar os artigos dos reformadores com medidas de aplicação referentes aos costumes e princípios de culto na igreja da cidade, bem como do seu ofício pastoral. Os nacionalistas religiosos, principalmente, foram os responsáveis por sujeitar os
princípios de culto aos seus interesses políticos. Em razão das exigências disciplinares dos reformadores serem tão abusivas aos olhos de alguns cidadãos genebrinos, ficou decidido, após pressão política, que Calvino, Farel e Ellie Coraud não deveriam pregar nem mesmo distribuir a Santa Ceia. Obviamente, Calvino não aceita tal intervenção. “Aos olhos dos reformadores”, conta André Biéler, “esta interdição põe em xeque a própria dignidade
de seu ministério, e eles estão absolutamente decididos a dela não abdicar”.

Em 1538, quase dois anos depois de fixar residência em Genebra, Calvino e Farel são expulsos da cidade, por não
estarem dispostos a obedecer as determinações do magistrado civil. Todo esse relato de equívocos e frustrações no processo de reforma social nos ensina uma lição preciosa: o cuidado necessário ao tentarmos impor nossa fé a uma sociedade civil. Ainda que um dos pilares filosóficos fundamentais da cosmovisão reformada seja justamente a influência transformadora da graça sobre a natureza, no que diz respeito à esfera política, isso nunca deve ser feito através da imposição.

Mais do que isso, existe ainda o perigo adjacente: em nome da pureza dos costumes cristãos, historicamente, alguns reformadores políticos impuseram padrões morais sobre uma população que nada tinham a ver com os princípios bíblicos. Precisamos compreender que a grande dificuldade não é trabalhar com princípios bíblicos na condução
de uma nação, mas antes, impor posturas que vão muito além dos que as Escrituras recomendam. Isso porque, algo que a cosmovisão reformada crê é que, quando um princípio sociocultural tiver real inspiração no ensino bíblico, esse encontrará uma mínima ressonância na consciência do povo em geral (cf. Rm 2.15). Contudo, o contrário senso também é verdadeiro, proibir a produção de músicas que não sejam sacras, impedir que o comércio fique aberto durante os períodos de culto, ou até mesmo obrigar as pessoas, sob pena civil, de comparecerem à igreja é
algo absurdo do ponto de vista político – esses são todos exemplos de medidas tomadas em Genebra que não podemos nos dar ao luxo de repetir.

Murilo Morais