A carta de Apocalipse, revelada a João por meio de Jesus, fora destinada às sete igrejas da Ásia menor, atual Turquia. Segundo uma série de intérpretes, o número “sete”, na simbologia bíblica, se refere a totalidade. Sendo assim, a mensagem ali revelada destina-se a todas as igrejas espalhadas na face da terra, em todos os tempos.

No segundo capítulo de Apocalipse, quando Jesus revela a mensagem destinada, inicialmente, a igreja de Éfeso, a repreende fortemente por um erro crasso, um ponto não somente fundamental, mas fundante da fé Cristã e pressuposta para a santidade, ponto que a igreja de Éfeso tornara-se deficitária. A igreja plantada em amor pelo Apóstolo Paulo, que foi palco da primeira escola teológica da Ásia (Atos 19. 8–10), destinatária de um dos maiores tratados teológicos paulinos e pastoreada pelos maiores discípulos do Apóstolo (1Timóteo 1.3, 2Timóteo 4.12), deixara de amar. Elogiados pelas obras, perseverança em Cristo, repulsa aos falsos mestres e apóstolos, e ao misticismo e vãs filosofias. A igreja de Éfeso fez frente ao comércio sexual e religioso e às práticas ocultistas (Atos 19. 19–27), pregou o evangelho por toda Ásia (Atos 19. 10). “Contudo, tenho contra você uma queixa”, diz Cristo por meio de João, “você abandonou o amor que tinha no princípio” (Apocalipse 2. 4).

A igreja que deixou de amar, tem o seu lugar tirado dentre o povo de Deus. “Veja até onde você caiu! Arrependa-se e volte a praticar as obras que no início praticava. Do contrário, virei até você e tirarei seu candelabro de seu lugar entre as igrejas” (Apocalipse 2. 5). As más notícias são acompanhadas de boas novas, são apresentadas a igreja às consequências de seus pecados, mas também é oferecida uma alternativa, é feito um chamado para o arrependimento. Cristo chama a igreja de Éfeso a voltar às práticas amorosas. O seu erro não foi preservar a doutrina, mas sim, não preservar o amor na maneira de defende-la. A fidelidade as escrituras é fundamental, no entanto, a marca do cristão é o amor, não a boa teologia.

“Por isso, agora eu lhes dou um novo mandamento: Amem uns aos outros. Assim como eu os amei, vocês devem amar uns aos outros. Seu amor uns pelos outros provará ao mundo que são meus discípulos”
(João 13:34‭-‬35).

“Eu os amei como o Pai me amou. Permaneçam no meu amor. Quando vocês obedecem a meus mandamentos, permanecem no meu amor, assim como eu obedeço aos mandamentos de meu Pai e permaneço no amor dele” (João 15:9‭-‬10).

“Vocês não me escolheram; eu os escolhi. Eu os chamei para irem e produzirem frutos duradouros, para que o Pai lhes dê tudo que pedirem em meu nome. Este é meu mandamento: Amem uns aos outros” (João 15:16‭-‬17).

A marca da igreja contemporânea

Sendo pois, as cartas enviadas às sete igrejas destinadas também, em última análise, a todas as igrejas em todos os tempos, Jesus anteviu o declínio das práticas amorosas nas igrejas contemporâneas. Há tempos, a igreja é vista por alguns setores sociais como uma instituição em constante vigília, pronta a punir toda escorregada em vista da moralidade dogmática. Visão sustentada por muitos grupos minoritários.

É bem verdade que a igreja deve confrontar práticas seculares, isso é inegável. Ela deve preservar a sua integridade doutrinária, ser fiel às escrituras. No entanto, há uma certa intransigência que nos faz cair no mesmo erro de Éfeso, que mesmo rejeitando os nicolaítas, os falsos mestres, e se opondo às práticas seculares, caíram em pecado. Porque o seu trabalho apologético teve em vista o legalismo, e não o amor. A aversão que tinham pelas heresias, transferiu-se também para todos os que pensassem e agissem diferente. A defesa do evangelho foi mediada pelo falso moralismo, e não pelo Ágape.

Portanto, o chamado para voltar-se às práticas de amor, é também direcionado a contemporaneidade.

Jesus, repetidas vezes, combateu nos evangelhos o legalismo fariseu. Sendo esse diferente da fidelidade às escrituras e da exortação em amor, na medida em que, por meio do vão legalismo, cria-se um sistema de exclusão, que pune e joga às margens todo anormalidade. Já a maneira com a qual Jesus agia, tinha em vista o perdão o acolhimento, perdão de pecados e o chamado para o arrependimento. No amoroso ato de acolher, está pressuposto o chamado ao arrependimento.

Em Apocalipse 2. 7, o Senhor promete um prêmio a quem se preservar.

“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao vitorioso, darei o fruto da árvore da vida que está no paraíso de Deus”
(Apocalipse 2:7).

Para que haja uma vitória, é pressuposto um conflito, Cristo não se refere somente àqueles que são inerentes a condição do mundo, mas as grandes tribulações, reveladas nesta carta, que a igreja passará. Só terão lugar entre os vitoriosos, aqueles que se preservarem em amor e santidade, pela graça de Cristo.

“Você, porém, que é um homem de Deus, fuja de todas essas coisas más. Busque a justiça, a devoção e também a fé, o amor, a perseverança e a mansidão. Lute o bom combate da fé. Apegue-se firmemente à vida eterna para a qual foi chamado e que tão bem você declarou na presença de muitas testemunhas” (1Timóteo 6:11‭-‬12).

“Pois grande é o seu amor por nós; a fidelidade do Senhor dura para sempre. Louvado seja o Senhor!” (Salmos 117:2).