Socialismo de Babel

 Sobre a incompatibilidade de alguns ideários políticos com a crença cristã, Dostoiévski aponta em seu livro, Irmãos Karamázov, por meio do diálogo entre dois personagens que discutiam as relações entre Estado, Fé e Incredulidade, um forte paralelo entre políticas com um discurso “messiânico” – no sentido em que, dados discursos oferecem uma pretensa salvação e solução para algum problema, ou para todos os problemas – e uma passagem que consta em Gênesis 11: “igualmente, se tivesse concluído que não há nem Deus nem imortalidade, ter-se-ia tornado ateu e socialista (porque o socialismo não é apenas a questão operária ou do quarto Estado, mas é sobretudo a questão do ateísmo, de sua encarnação contemporânea, a questão da torre de Babel, que se construiu sem Deus, não para atingir os céus da terra, mas para abaixar os céus até a terra)”.
Dostoiévski acreditava que os ideais socialistas e a crença cristã eram incompatíveis em certo grau. Uma vez que a real igualdade só seria plausível em uma realidade completamente diferente e elevada, (propriamente o céu) ao olhar de Dostoiévski. No entanto, não se pode negar a extrema força atrativa que tais ideias exercem sobre o imaginário, a promessa de um mundo melhor, mais justo e igual, onde os bens são repartidos entre todos e não existem ricos nem pobres.
No mesmo livro encontra-se um trecho, que a pesar de estar um pouco fora de contexto, elucida bem a atração exercida sobre o imaginário em detrimento de um discurso messiânico: “Se aquele penhasco, de que ela gostava particularmente, tivesse sido menos pitoresco ou substituído por uma margem chata e prosaica, não teria ela, sem dúvida, suicidado”. Se aquele discurso, por ventura tivesse sido menos inflamado, menos sonhador, mais real, se tivesse ele proposto um sistema econômico mais sustentável, se também tivesse apresentado uma política mais viável porém menos atrativa, se esse discurso messiânico não tivesse se proposto a fazer algo tão absurdo e tão atraente, não teria o militante político, o intelectual engajado e o terrorista ideológico suicidado. Não seriam eles dispostos a matar e morrer pela causa, a pegar em armas. Tamanha é a força atrativa de um discurso como o tal. Nem o militante, nem o intelectual e nem o terrorista nutrem qualquer dúvida sobre os seus ideários, assim como quem participou da construção da Torre de Babel não nutria dúvida alguma de que alcançariam o céu (ou que o trariam para a terra, simbolicamente).
Creio que um dos motivos pelo qual o socialismo mostra-se em certo grau incompatível com o cristianismo é de que a mentalidade revolucionária, antes de se tornar um “hábito revolucionário” – como diz Francisco Razzo – “o espírito cultivou a ideia com a força de uma revolução interior”. A medida em que uma crença política é cultivada pelo espírito tornamo-nos suscetíveis a lutar por ela, conforme essa crença política ofusca a crença em um Deus que faz justiça e que tem o seu próprio tempo e que, conforme esse tempo alcançaremos a plena igualdade, torna-se plenamente justificável, na mente radicalizada do revolucionário, a construção de uma compreensão reducionista do homem e do mundo, onde tudo se reduz a luta de classes.
Como bem pontuou Razzo, “o problema desse mito marxista travestido de ciência está no pressuposto equivocado de que a dinâmica da história é determinada pela luta de classes e pode ser objeto de uma ciência rigorosa. Nesse sentido, no contexto dessa pretensiosa concepção científica do homem, tanto o opressor quando o oprimido não passam de categorias impessoais. Qual o problema de fazer as contas e eliminar as variáveis que atrapalham a realização desse projeto que funciona no papel?”.

Considerações finais.

A crença radicalizada constitui uma chave de compreensão sangrenta, onde uma “violência redentora” é plenamente justificável se favorecer a causa. A política entra como esperança, a militância como devoção, a causa como fé, o Estado, O Poder e A Luta como santíssima Trindade. Não trata-se apenas de defender ideias defasadas, mas sim de adotar um conjunto de crenças incompatíveis com os ensinamentos de Cristo. Segundo o ditado, de boas intenções o inferno está cheio, portanto, por mais altruísta que a ideia pareça ela não faz-se aplicável e os seus meios também não se fazem justificáveis.
Graça e paz.

4 comentários Adicione o seu
  1. Outra coisa que os socialistas esquecem é que a causa primária de todas as desgraças do homem é a rebelião contra Deus. O assim chamado pecado original. Quando se esquecem que o homem é irremediavelmente pecador, que o mal está arraigado em só coração, provam o ser humano da única coisa que pode mudar o seu jeito de viver e fazer a verdadeira paz a terra, que é a graça Deus, manifesta em Cristo.

    1. Sim, a proposta de mudança marxista é inviável pois, a única coisa que nos muda radicalmente é a graça de Cristo, manifesta pelo seu ser e pela bondade do Pai. Brincar de marxista é brincar de ser Deus, no sentido em que julga-se capaz de fazer o que somente Cristo pode fazer naquele glorioso dia em que voltará.

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