Na rotina do culto

Quanto a mim, os meus pés quase que se desviaram; pouco faltou para que escorregassem os meus passos.

Salmos 73:2

A caminhada cristã é recheada de obstáculos que, em diversas vezes, pensamos ser impossíveis de vencê-los. Como lidar com o sentimento de desistência e abatimento perante a nossa realidade?


O Salmo 73 narra o drama de Asafe — sua vida estava em profunda crise. Ao realizarmos uma investigação do texto é nítido como ele demonstrava sinais de cansaço espiritual e amargura com a vida. Fica claro isto quando ele afirma:

Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios.
Salmos 73:3

O clamor do seu coração era para ter uma vida mais fácil e um refrigério para sua alma cansada da rotina do culto.

Para ele, a liturgia e as práticas já não faziam mais sentido e o cansaço cegou o seu entendimento.

Muitos de nós nos encontramos na mesma situação, cansados e sem refrigério para nossas almas, esperando que a igreja supra nossas necessidades. Porém, a realidade não é bem assim.

E se a história de Asafe acontecesse nos dias atuais, como seria? Abaixo tentarei contextualizar essa história bíblica na ótica do nosso tempo.

Nos dias atuais

Asafe é um cristão que por diversas vezes não se enquadra na pós-modernidade. Existe dentro dele um choque cultural muito grande. Grande parte do tempo, ele é incompreendido e taxado como radical e extremista. Mas o que ele queria, na verdade, era compreender alguns acontecimentos que iremos narrar logo a seguir.

Reverência a Deus

Parece que os jovens e adolescentes não compreendem mais sobre o significado de reverência no culto público. Exemplos simples como conversas paralelas, mexer no celular ou comer alimentos no meio do culto tem se tornado comum e, pasmem, não são chamados à atenção por conta dessas atitudes. O coração de Asafe se entristece, pois o Deus Todo Poderoso está presente e as pessoas não estão nem aí.

Ignoramos a presença de Deus e sua santidade. Os judeus têm um costume bastante peculiar: quando eles entram na sinagoga, ficam de cabeça baixa e em silêncio, cumprindo um verso da Escritura:

Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; assim sejam poucas as tuas palavras. Eclesiastes 5:2

Eles compreendem que existe um Deus Santo que deve ser adorado por esse motivo.

Porém, a irreverência e desobediência dessa geração é sua marca registrada. Tratam a Deus, como um amigo de faculdade ou de escola e esquecem que ele é Rei e Soberano. Afinal, você iria tratar o rei de um reino como seu colega? Creio que não. Mas então, por que com Deus temos essas atitude?

Louvor e adoração

Outro ponto que Asafe não consegue entender são as músicas que as igrejas tem entoado. Nunca se viu em toda a história da igreja um louvor tão decadente e humanista.

Diversas canções sequer mencionam a Deus e sua soberania e outras são apenas uma repetição de certas frases e trechos sem sentido teológico nenhum. Onde estão as músicas cristocêntricas que manifestam a pessoa de Cristo e seu caráter?

O Asafe contemporâneo não canta diversas músicas, pois não se vê sentido nenhum em serem cantadas.

O louvor deixou de ser um sermão cantado e passou ser um entretenimento para as massas, com músicas humanistas onde a prioridade é Deus me abençoar, libertar e curar.

Exposição das Escrituras

Ele tem esperança que algo mude que preencha o vazio existencial da sua alma e aposta todas suas fichas no momento da exposição das Escrituras.

Para sua surpresa, a mensagem não exalta a Cristo, é totalmente humanista e não tem o crucial de toda pregação: o plano glorioso da salvação. São mensagens totalmente sem sentido para o contexto pós-moderno.

Nosso personagem não recorda qual foi a última vez que ouviu uma pregação sobre: pecado, inferno e a volta de Cristo.

Seu coração se desfalece em meio de tanto descaso com as Escrituras e percebe uma gama enorme de jovens famintos pela Palavra, mas o que se tem dado são somente migalhas do Pão da Vida. Muitos se cansaram, pois não são alimentados como deveriam. Parece que o Evangelho não é substancial para a vida deles e acabam trilhando rumos diferentes, procurando espiritualidades alternativas.

Comunhão

Nosso “Asafe” tem uma ponta de esperança na comunhão dos santos, mas se decepciona mais uma vez, pois, não há interação entre os santos, mas somente um relacionamento totalmente superficial e virtual.

Vivemos numa geração mais virtual do que real, onde há essa necessidade fora do comum de utilizar a internet para tudo, numa dependência quase integral.

Com isso, temos um cenário com crentes extremamente rasos na fé, sem quase nenhum entendimento bíblico e sem experiência mais profunda nos seus relacionamentos.

Tal geração, se denomina como os loucos por Jesus, aqueles que vão revolucionar o mundo. Ao analisar as escrituras, percebemos que os apóstolos no livro de Atos revolucionaram o mundo (colocaram de cabeça pra baixo) por conta do seu testemunho, sua vida íntegra e reta perante Deus.

O desgosto

Asafe, mais uma vez volta para casa com uma inquietação no peito e um cansaço quase mórbido. Tentou mais uma reunião e não conseguiu, saiu sem entender nada do que aconteceu. Sente o vazio na alma e procura até pensar que a culpa foi dele, mas chega logo à conclusão que isso ocorreu por negligência das pessoas.

Cansado de tentar e quase implorar oportunidades para exercer seu dom e ministério, ele se vê na condição como ovelha indo ao matadouro sem poder fazer muita coisa, somente clamar ao Eterno Deus pela Sua Graça e oportunidades vindas de Sua parte.

Seu coração é cortado diariamente, pois vê irmãos definhando espiritualmente, pois estão sendo alimentados com leitinho, enquanto precisam de alimento substancial. Muitos estão morrendo espiritualmente e isso é devastador para ele.

Com tantos problemas, olha a vida dos descrentes e nota que existe um caminho tranquilo, vida fácil, um sorriso bobo no rosto. Começa a desejar esse tipo de vida, pois não existem apertos em suas vidas.

E por algum tempo, reflete e pensa que foi em vão ter dedicado tanto tempo de sua vida à casa do Senhor. Até que ele adentra no santuário de Deus.

Até que entrei no santuário de Deus; então entendi eu o fim deles. Salmos 73:17

Deus revela o fim daqueles que ele desejava ser e percebe que caminho final trilhado por eles os conduzem para a morte e destruição. E, talvez você, que lê esse texto, se cansou como o Asafe moderno, em meio a tantos problemas, de ser taxado como radical, extremista e herege em sua comunidade, tendo suas esperanças seguras por um fio.

Asafe, porém, contemplou a glória de Deus e sua visão de mundo foi totalmente mudada! Quem sabe, o que precisamos com grande urgência, seja a revelação da glória do Eterno?

Alguns personagens bíblicos foram marcados pela a glória de Deus, homens que tiveram seu destino transformados por encontrarem com a presença Dele. Jacó, tido como trapaceiro, ladrão e mau caráter teve sua vida tocada e seu nome mudado para Israel, que significa Príncipe de Deus.

E chamou Jacó o nome daquele lugar Peniel, porque dizia: Tenho visto a Deus face a face, e a minha alma foi salva.

Gênesis 32:30

O profeta Isaías encontra-se com a presença de Deus e logo recai o peso do seu pecado e sua culpa perante ao Eterno Deus:

Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos. Isaías 6:5

O que Asafe compreende é que necessitamos do assombro da presença, a revelação suficiente do seu filho Cristo Jesus, em nossas vidas. Uma revelação que gere uma teologia saudável e viva, um coração pulsante e apaixonado pelo Salvador, compreendendo que Ele é suficiente e supremo em nossas vidas.

Após sua vida ser restaurada, ele recorda da passagem da escritura que diz:

Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; ainda que decepcione o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja gado;

Todavia eu me alegrarei no Senhor; exultarei no Deus da minha salvação.
O Senhor Deus é a minha força, e fará os meus pés como os das cervas, e me fará andar sobre as minhas alturas

Habacuque 3:17-19

2 comentários Adicione o seu
  1. Graça e Paz!
    Muitos escolheram outros caminhos, ao invés de permanecerem como Senhor. Uma das coisas que tem causado essa ” SÍNDROME DE ASAFE”, digamos assim, é por não terem sido ensinadas, que que o evangelho não significa que seremos revestidos de uma invulnerabilidade em todas as áreas de nossas vidas, mas no Senhor, teremos suporte para lhe dar com situações. Pessoas optam por um outro caminho, por situações das mais diversas, que acontecem dentro de nossas igrejas que nos entristecem e desanimam. Me faz lembrar de uma frase do Pr. Paulo Romeiro, que é a seguinte:
    “CAMINHAR COM JESUS, É CONVIVER COM JUDAS.”
    pegando um gancho nessa frase do Pr. Paulo, digo:
    CAMINHAR COM JESUS, ALEM DE CONVIVER COM JUDAS, TEREMOS QUE ESTAR LADO A LADO, COM PESSOAS COM A SÍNDROME DE DIÓTREFES.
    Graça e Paz.
    Dc. Marcos Vinicius
    Igreja Presbiteriana da Gávea

    1. Olá Marcos,

      Muito obrigado pelo seu comentário, realmente a síndrome de Asafe tem alcançado muito essa geração em que vivemos. Muito pelo o que você pontuou uma falta de compreensão da cosmovisão bíblica e o modo de viver cristão.

      Na paz,
      Saber Teológico.

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