Um líder pela graça de Deus

Deus se revela misericordiosamente, nos elegendo pela graça para salvação. E para cumprir seus propósitos na vida da humanidade, estabelece planos e designa servos a fim de atuarem como instrumentos na realização de cada objetivo divino. Nesta tarefa de escolha, os critérios do Senhor se opõem ao padrão cobrado pelo mundo (I Co 1:27-28), e tudo que Ele realiza é para Sua própria glória. A jornada de Moisés como líder, desde o princípio, nos leva a meditar muito mais na graça de Deus que em suas capacidades, uma vez que todas elas foram concedidas e aprimoradas pelo próprio Senhor para o serviço do Reino. Surgem então, algumas conjecturas importantes sobre o ministério de Moisés que todo líder cristão deveria buscar em Deus e aplicar.

 

  • Primeira conjectura: o reconhecimento de nossas incapacidades, somado à consciência da graça através da qual somos chamados para ministérios específicos, deve nos tornar submissos aos desígnios de Deus.

 

Nos capítulos terceiro e quarto de Êxodo, vemos Moisés instar com o Senhor, expondo sua falta de capacitação para libertar o povo do Egito e conduzi-lo pelo deserto. O que parece covardia para o reino desse mundo, na verdade é temor (Êx 3:6) a quem é devido. Esta atitude resulta da maravilhosa experiência que Moisés teve ao escutar o anúncio de quem era Deus (tão magnífico) e olhar para sua condição de criatura (Êx 3:6). E este acontecimento de olhar para o Pai e perceber nossas misérias, deve gerar submissão na vida do crente. Em tratando-se de um chamado para liderança podemos aplicar o mesmo princípio. Foi o que aconteceu a Moisés, sua resistência e dificuldades não o impediram de cumprir o propósito para o qual ele foi designado.

 

  • Segunda conjectura: A compreensão da imensa responsabilidade de liderar o povo de Deus, implica lembrar constantemente de sua condição de liderado, e buscar os conselhos do Senhor, porque o povo pertence a Ele.

 

Depois de ouvir a exposição do plano de Deus, Moisés toma uma atitude interessante, a de prevê os possíveis obstáculos que poderiam se colocar na execução do projeto. Neste caso, a falta de fé do povo israelita. Então ele busca a solução em Deus (Êx 4:1). Este procedimento nos ensina que o líder deve conhecer o povo que lidera e ter visão, mas principalmente reconhecer que a sua vontade, os seus planos não são o melhor, e sim o desejo de Deus. Quando Moisés compreende isso, Deus providencia meios pelos quais o seu servo provaria está falando da parte do grande Eu Sou.

 

  • Terceira conjectura: Diante dos problemas, da espera pelo socorro de Deus e do cumprimento de suas promessas, o líder deve ser misericordioso, paciente e não passivo.

 

O Senhor já havia comunicado o futuro endurecimento do coração de Faraó, sucedeu conforme suas palavras, e enraivecido, Faraó castiga o povo com muitos trabalhos, por isso, o povo volta a duvidar da promessa de libertação. No entanto, mais uma vez Moisés busca no Senhor todas as respostas. Nos versículos 22-23 do capítulo cinco de Êxodo, Moisés mostra-se compadecido do sofrimento dos seus irmãos “Ó Senhor, porque afligiste este povo?”. Já no sexto capítulo o Senhor revela o porquê das condições parecerem contrárias (v.2). Ele desejava fazer-se conhecido. Mostra também que, na verdade, a misericórdia provinha primeiramente Dele (v. 5), e reafirma mais uma vez o seu propósito (v. 6-13). Entendemos, portanto que o líder necessita de sensibilidade, inicialmente para ouvir o povo, e em seguida, orando a Deus, tentar enxergar com os olhos da fé para não interromper sua caminhada.

 

  • Quarta conjectura: “O bom líder possui uma visão clara da tarefa” e não se deixa tentar pelos atalhos.

 

Após a quarta praga descrita no oitavo capítulo de Êxodo, Faraó faz a seguinte proposta a Moisés e Arão: “Ide, e oferecei sacrifícios ao vosso Deus nesta terra” (v. 25), porém, Moisés no mesmo momento contrapõe “Não convém que façamos assim” (v.26). Pois, ele tinha convicção dos objetivos do Senhor, que desde o princípio dizia que deviam sacrificar no deserto, e não no Egito. Muito bem poderia, por causa dos aparentes “fracassos” das pragas anteriores, dar-se por vencido e contentar-se com a palavra do Faraó, mas o verdadeiro líder não se desvia de sua tarefa, e atenta para a voz do seu Senhor. “Como ele nos disser” (v. 27) foi a resposta de Moisés.

 

  • Quinta conjectura: O líder deve dominar-se a si próprio.

 

Antes da passagem pelo Mar Vermelho, quando o povo já caminhava sob o consentimento de Faraó, Deus revela que o endureceria novamente, e os egípcios os perseguiriam. A Bíblia mostra que ao sucederem esses fatos, os filhos de Israel “temeram muito e […] clamaram ao Senhor” (Êx 14: 10), mas também importunaram a Moisés o acusando de leva-los a morte. Desta vez, ele fala diretamente ao povo, reanimando e fortalecendo a fé (“aquietai-vos”, “vede” – v. 13), para em seguida os repreender “O Senhor pelejará por vós, e vos calareis” (v.13).  Segundo Borges (2004), em seu livro O obreiro aprovado, as provas objetivam gerar “[…] proatividade e domínio próprio naquelas áreas em que somos vulneráveis” (BORGES, 2004, p. 54), assim, diante das acusações e falta de fé do povo, o líder precisa de domínio próprio.

 

  • Sexta conjectura: O serviço do líder deve glorificar a Deus.

 

O líder a serviço de Deus não planeja e executa planos a fim de alcançar prestígio para si, pelo contrário, busca dar glória a Deus, e influencia os seus liderados a fazerem o mesmo. Borges (2004, p. 22) alerta: “O que inspira nossas ações e motiva nosso serviço é tão relevante quanto a própria ação e o serviço em si. Na verdade, todo esforço íntimo no sentido de impressionar homens nos desqualifica perante Deus”. Em Êxodo capítulo 15 identificamos esta verdade apontada por Borges, pois Moisés e todo povo de Israel entoam louvores ao Senhor pelos feitos maravilhosos, na libertação do cativeiro do Egito. A segunda parte do verso dois do mesmo capítulo diz: “[…] Cantarei ao Senhor, porque triunfou gloriosamente; lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro”. E todas as ações narradas no cântico pelos israelitas, sem dúvida, apresentam-se em reconhecimento do poder operante de Deus.

Com efeito, podemos aprender inúmeros ensinamentos acerca de liderança, refletindo apenas na vida de Moisés, mesmo assim, estas seis conjecturas podem nos fornecer uma noção de que, independentemente do chamado para liderança, da finalidade secundária dos projetos de Deus, o objetivo principal Dele é sempre Sua glória. Por este motivo, os pontos destacados procuram centrar primeiramente em Deus todas as ações.  Pois, Ele mesmo coloca em nós a submissão, como no ponto um, o amor pelas pessoas e o desejo de buscar ao Senhor, como na segunda conjectura. Além disso, na terceira, reconhece-se que a misericórdia provém de Deus, na quarta proposição, o discernimento para não desviar-se da missão. Na quinta, que Deus nos abençoa com domínio próprio e sabedoria. E por fim, todas as anteriores devem ser motivadas pelo desejo de servir e glorificar a Deus.

2 comentários Adicione o seu

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *