Uma reflexão sobre o pecado

“Era, porém, Eli já muito velho e ouvia tudo quanto seus filhos faziam a todo o Israel e de como se deitavam com as mulheres que em bandos se ajuntavam à porta da tenda da congregação. E disse-lhes: Por que fazeis tais coisas? Por que ouço de todo este povo os vossos malefícios. Não, filhos meus, porque não é boa fama esta que ouço; fazeis trasngredir o povo do SENHOR. Pecando homem contra homem, os juízes o julgarão; pecando, porém, o homem contra o SENHOR, quem rogará por ele? Mas não ouviram a voz de seu pai, porque o SENHOR os queria matar.” (1Sm 2:22-25 ARC)

Eli era da casa de Levi, ou seja, era da tribo que foi separada por Deus para o serviço sacerdotal na congregação (o sacerdócio começou com Arão, irmão de Moisés, e foi sendo passado hereditariamente somente na tribo de Levi);

O tempo passou e Levi envelheceu, mas parece que o mesmo não acompanhou ou não se preocupou tanto em conhecer seus filhos de perto, pois foi necessário que boatos chegassem a seus ouvidos já na velhice para que ele soubesse as abominações que seus herdeiros andavam praticando;

Os filhos de Levi, Hofni e Fineias, viviam uma vida repleta de pecados. Pecavam não só contra si, mas por causa de seu mau exemplo, faziam com que todo o povo pecasse também.

O homem julgará as próprias transgressões, mas a transgressão contra o Senhor dos Exércitos (Yahweh Sabaoth) não passará em branco. A sua JUSTIÇA não tarda.

 

Tendo por base essa passagem do livro de 1 Samuel, gostaria de expor uma constatação que me chamou mais a atenção, por mais que muitas lições possam ser tiradas desse texto. E a constatação é a seguinte: nossos pecados podem gerar consequências graves não só a nós mesmos, mas às pessoas pelas quais somos responsáveis.

Eli era um homem de Deus, sem dúvidas, e era o sacerdote de seu povo: era responsável por cuidar do templo e dos assuntos referentes ao correto culto a Deus. Vemos que ele tinha dois filhos, que também eram sacerdotes, mas não conheciam ao Senhor (v. 12). Uma inferência interessante que podemos tirar disso é que não existe crença hereditária, ou seja, por mais que Hofni e Fineias fossem filhos de Eli, não temiam e nem obedeciam a Deus; a fé e temor que Eli possuía não eram passadas automaticamente aos filhos só por estes terem sido criados num lar “crente”. É preciso uma experiência pessoal para que haja conversão.

Nessa primeira parte do livro, podemos conhecer os atos dos fihos de Eli e como isso gerou consequências graves para sua própria família e para todo o povo. A tribo de Levi foi comissionada diretamente por Deus para serviço no templo, ou seja, serviços sagrados. Hofni e Fineias negligeciaram a santidade envolta em sua linhagem e acabaram pecando contra o próprio Deus (v. 12-17). E como vemos no versículo 24, pelo mau exemplo dado por eles por estarem em uma posição de destaque na nação, acabaram fazendo transgredir todo o povo de Deus. A ira de Deus veio sobre sua família e contra o todo o Israel com a derrota pelos filisteus e o roubo da arca do Senhor, como pode ser lido nos capítulos seguintes.

Essa passagem é muito rica em ensinamentos da parte de Deus e é bom que possamos refletir um pouco. Muito do que se passa em nosso meio cristão resulta do pecado de algumas pessoas que deveriam estar dando o exemplo, mas que acabam fazendo com que todos abaixo deles pequem também.

O problema todo começa quando não prestamos atenção suficiente em nossa própria família. A negligência de um pai pode por em risco a vida e, principalmente, a salvação de seus descendentes. É preciso acordar para isso: não existe salvação posicional, os filhos não serão salvos automaticamente num lar cristão. Lembremos da mulher de Ló, que era cunhada de Abraão, pai da fé, que se viu mais tentada a virar-se para sua vida antiga do que seguir para um caminho de salvação. Ser da família de Abraão não lhe garantiu a entrada no Reino.

Parece que essa ideia errada de salvação dos filhos está presente nas famílias cristãs brasileiras e não é de se admirar que haja tantas crianças e jovens ímpios que são filhos de crentes professos e até mesmo de pastores e líderes das congregações. Se as pessoas pensassem mais sobre isso, talvez se preocupassem mais sobre o estado caído em que se encontram suas próprias famílias. A igreja precisa se preocupar com o estado da própria salvação. Engana-se quem acha que nascer em determinado tipo de lar ou levantar a mão em um culto garantirá a entrada na vida eterna.

Os pais precisam ser o exemplo aos quais os filhos vão se espelhar e pegar como referência. A semelhança a Cristo deve ser vista através de uma vida piedosa. Não podem existir discursos como “isso não tem nada a ver”; tudo tem a ver no Reino de Deus. O meu Deus não deixou de ser santo e cada ato de nosso dia deve mirar à sua santidade. De “nada a ver” em “nada a ver”, a criança vai criando uma ideia errada do evangelho e vida piedosa que pode (e vai) influenciar toda a sua vida, podendo fazer com que a mesma nunca seja salva, por não conhecer o verdadeido Deus.

Vimos como os erros dos pais influenciam toda uma geração. Imagine quando potencializamos isso colocando os líderes religiosos e líderes da nação em evidência. Do mesmo jeito que aconteceu com Israel há milhares de anos atrás, os pecados dos nossos “sacerdotes” nos fazem pecar também e nos fazem sentir a ira de Deus.

Interessante é constatar que as nações de primeiro mundo hoje são frutos de colonizadores protestantes do passado. Muitos países, como Estados Unidos, e a maioria da Europa tiveram influência determinante de cristãos reformados (muitos deles puritanos), dando excelentes resultados, como podemos ver hoje em dia, numa visão macro. Naquela época de colonização, a Reforma estava latente no coração dos crentes e isso influenciava tudo em seu modo de vida. A boa nova era presente em seus corações. Infelizmente não podemos dizer o mesmo de países como o nosso, colonizado por uma nação católica e por um povo que veio fugido de sua terra natal. Colhemos as consequências disso até hoje.

Quis fazer esse apanhado para mostrar que o nosso pecado gera males grandiosos com as pessoas à nossa volta. Será que esse tipo de situação não acontece também em nossas igrejas? Será que os pastores têm se preocupado em pregar a verdade e tem se preocupado em olhar seu rebanho? Eu acho que não, em muitos casos. Eu não gosto de tomar uma posição de crítico desse jeito, mas não tem como deixar de ver algumas coisas. Inclusive, me incluo naqueles que erram e deixam que errem. Há muito o que deve ser melhorado.

Acho que um bom ponto de partida seria nos questionarmos o porquê de fazermos o que fazemos nos cultos e nas igrejas. Parece que a igreja está mais preocupada com quantidade do que com qualidade. Enquanto continuarmos a deixar a qualidade de lado, a nossa atual condiação não vai melhorar nem tão cedo.

Os jovens nas igrejas muitas vezes não tem um bom exemplo por parte dos líderes e pastores. Falta exortação; as pessoas se preocupam muito em falar de um dos atributos de Deus, que é o amor, mas se esquecem de outros, como a jusitiça e ira, ambas santas. As pessoas tem que ser mais confrontadas com seu próprio estado pecaminoso e serem levadas ao arrependimento antes que a ira de Deus caia sobre seu povo (Deus não deixou de ser justo).

Muitos não tem entendido o propósito de Deus para a própria vida porque não tem sido ensinado isso pelos pastores. As pessoas se esquecem que a maior parte das coisas que Deus quer para a nossa vida já foi revelada, tudo que foge da Santa Escritura vai contra os planos de Deus para a nossa vida. Um exemplo muito visto na igreja é a falta de exemplos de relacionamentos bíblicos. As pessoas tem se relacionado de qualquer jeito, casado de qualquer jeito, e isso tem trazido desgraça para o povo de Deus, sendo que o modelo perfeito de relacionamento já foi dito por Deus através da Bíblia. Não teremos o direito de nos assustar quando acontecer como nos dias de Noé, quando “comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e consumiu a todos” (Lc 17:27). Isso é só um dos exemplos dentre muitos outros que podem ser vistos nas congregações.

Enquanto a liderança não acordar e parar de querer ser igual ao mundo, querendo grandes quantidades de “convertidos” e “passar a mão na cabeça” dos membros das igrejas, a nossa história não vai mudar e o tão esperado avivamento não vai vir. Lembremos que somos responsáveis pelas pessoas, nossos pecados podem acabar sendo o pecados de todos. Que a graça abundante de Deus caia sobre nós e possamos perceber o quão dependentes somos dEle. Que nossos pecados sejam revelados e possamos viver uma metanoia. Que ser a semelhança de Cristo seja nosso maior foco nessa vida e que não nos esqueçamos que Deus não aceita sacerdotes negligentes e pecadores. O  meu Deus continua sendo santo e elegeu um povo para ser santo como ele.

 

“Sem  alguma evidência de que nossa fé em Cristo era real e genuína, ressuscitaremos apenas para sermos condenados.” (J.C. Ryle – Santidade)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *