Repreensões (críticas) a uma igreja infantil

Texto: Hebreus 5.11-14; 6.1-3.

Introdução: Um mestre sabe que nem todo estudante é rápido para aprender, é perceptivo, e é abençoado com uma memória privilegiada. Inúmeras vezes o mestre tem de repetir suas lições e exercitar a paciência com os estudantes que, por natureza, são aprendizes lentos. O Escritor de Hebreus interrompe sua explicação sobre o sacerdócio de Cristo para admoestar seus leitores a serem melhores estudantes da Palavra[1].

Elucidação: Os capítulos 4.14 – 10.18 tratam quase que exclusivamente do sacerdócio da Antiga Aliança contrastada com o sacerdócio da Nova Aliança. Então, o “miolo” da Epístola trata do sacerdócio por causa do seu valor para o povo de Israel. Os convertidos teriam de saber que Jesus substituiu o sacerdócio de Arão. Era um assunto difícil de tratar, principalmente para aqueles que são negligentes, sempre ouvem e nunca aprendem.

Tema: Repreensões (críticas) a uma igreja infantil

 

  1. UMA IGREJA INFANTIL É NEGLIGENTE COM O QUE VEM APRENDENDO/ ESCUTANDO (VV. 11, 12)

O autor faz uma crítica à igreja para deixa-la envergonhada. O escritor afirma que não pode continuar ensinando determinadas coisas que ele ainda tinha para ensinar. Não sabemos que coisas eram essas, mas podem ser a respeito de Jesus e de sua superioridade a todo o sistema da Antiga Aliança. Tudo aquilo que a carta vinha tratando.

Uma igreja ou um crente infantil é aquele que ouve, ouve e ouve, mas nunca aprende. O autor chama de “tardios em ouvir”, ou “lentos para aprender”, ou ainda “preguiçosos”. Imagine alguém que vive numa serraria e nunca aprende a serrar, ou num açougue e nunca aprende a cortar carne; ou um aluno que vai para a escola durante anos e lê como uma criança de três anos.

A questão aqui não é que as pessoas não conseguiam aprender, mas que elas não queriam aprender. Eram negligentes; o que costumamos chamar de “entrar por um ouvido e sair pelo outro”. O autor ainda completa dizendo que eles já deveriam ser mestres nas doutrinas (oráculos de Deus), mas não são. Isso é uma vergonha, porque é preciso sempre alguém vir e repetir as mesmas coisas (6.1, 2). Parecia que a Palavra não tinha efeito sobre a vida cotidiana das pessoas. Elas ouviam o que Deus queria, mas não viviam de acordo.

Quando a Palavra de Deus vem até alguém e esta pessoa continua pensando os mesmos pensamentos (enxergando a vida como sempre enxergou) e não os pensamentos de Deus; quando esta pessoa continua fazendo e resolvendo as coisas da mesma maneira que resolvia antes, pode ficar certo que, a despeito dela ter uma Bíblia, ou ir à igreja, ou participar das sociedades da Igreja, a Palavra não teve efeito sobre ela. A pessoa continua igual. Vive de aparências; possui apenas uma casca de crente; está podre por dentro.

Então pode-se dizer que, quando há negligência não há aprendizado contínuo. Se não há aprendizado contínuo o mestre fica impedido de ensinar, porque sabe que os alunos não vão entender o que vem depois. O mestre, no caso o escritor, parece ser obrigado a repetir coisas que todo crente, com um “certo tempo” de fé, já deveria saber. Em outras palavras, ele diz que a igreja está fazendo ele perder seu tempo[2].

Agora é preciso dizer algo sobre as responsabilidades tanto da igreja quando dos mestres. A culpa pela negligência é de quem ouve, mas, em muitos casos, os mestres não são mestres. Nem os que deveriam ser mestres da Palavra sabem muita coisa. Imagine, então, um pastor que passa dez anos numa igreja. Imagine também que este pastor não estuda as Escrituras e não domina “a Palavra da Verdade”.

Depois de dez anos a igreja já não aprende mais nada de novo. São sempre as mesmas coisas. Os mesmos sermões, os mesmos estudos, os mesmos temas. O pastor precisa compensar com algo. Então ele sabe que não tem muito conteúdo para ensinar e precisa fazer alguma coisa na igreja. Aí vem uma igreja cheia de “movimentos”. Cultos dos jovens, das senhoras, dos homens, o louvorzão, os abraços exagerados e o dia fora nas casas dos irmãos.

O que eu quero dizer com isso é que a igreja tem culpa em não ouvir os ensinos, mas devemos ter cuidado com quem está ensinando também. A igreja deve cobrar que seu pastor, evangelista ou pregador estude a Bíblia para poder alimentar o rebanho com a palavra de Deus e não com abraços. E, sem medo de errar, eu digo que um mestre hoje é tão raro quanto um diamante que alguém cavou e encontrou no quintal.

 

  1. UMA IGREJA INFANTIL, MESMO ANTIGA, SEMPRE PRECISA DE LEITE (VV. 13, 14)

O autor já deu a sentença sobre esta igreja no final do v. 12: “… vos tornastes necessitados de leite e não de alimento sólido.” Ou seja, vocês são crentes infantis. Se fizermos uma lista ela seria, mais ou menos assim:

  1. a) vocês são negligentes com o ensino;
  2. b) vocês já deveriam saber muito mais sobre os oráculos de Deus, porque já faz tempo que vocês começaram a aprender;
  3. c) é preciso que os mestres sempre repitam as mesmas coisas, que são os princípios elementares;

Depois destas palavras duras ele acrescenta dizendo que só há um tipo de ser humano que se alimenta sempre de leite, uma criança bem pequena. Isso representa uma grande crítica aos crentes daquela igreja e daquela cidade. Para o crente infantil, qualquer alimento sólido é motivo de escândalo. Se alguém diz algo novo, não uma novidade inventada[3], mas informação nova, o crente infantil e a igreja infantil logo rejeitam. Eles rejeitam e vomitam como um recém nascido que tentou comer um hambúrguer!

As crianças são os inexperientes e tomam decisões erradas, vão por lugares perigosos, acreditam em estranhos e, sem o cuidado dos pais, podem sofrer de forma emocional e física. Mas os pais não podem durar para sempre. A criança está em treinamento e, quando crescer, deve estar bem treinada para tomar decisões certas e não cometer erros infantis. Os adultos sempre estão treinando suas capacidades de escolha, do certo e do errado. Os adultos têm experiências que os jovens não tiveram ainda; por isso, tornaram-se maduros. Quem não aprendeu, não pode por em prática, ou seja, não treina e, quem não treina erra mais do que acerta.

É exatamente contra isso que Paulo luta quando escreve sobre os dons que o Espírito concede a Igreja em Efésios 4.11-16. Os dons foram dados para que a igreja cresça na fé. Mas o que é crescer na fé? Garanto que se você pedir a qualquer crente para explicar este texto, pouquíssimos vão interpretá-lo corretamente.

Vamos analisar:

  1. Paulo está falando de aperfeiçoamento, unidade de fé[4] e conhecimento (Ef 4.11, 12).
  2. Depois fala de crianças, igual ao autor de Hebreus. Crianças agitadas que não sabem tomar uma decisão bem fundamentada.
  3. Agora ele revela por que alguns crentes parecem crianças: por causa. É que eles não sabem diferenciar uma doutrina bíblica de outra. Uma doutrina falsa de uma verdadeira. É isso que ele chama “ventos de doutrina”.

A conclusão é simples: Crescer na fé é a mesma coisa que crescer no conhecimento das doutrinas bíblicas. Quem cresce no conhecimento das doutrinas vai conseguir se desviar dos erros próprios e dos falsos mestres. Quem não cresce nas doutrinas bíblicas sempre vai ser criança e acreditar no que qualquer um diz. Paulo diz que os que não crescem são como “meninos agitados” que não sabem no que acreditar e vão atrás de qualquer vento de doutrina.

Voltando para o crente infantil. O crente infantil não quer, nem pensa em crescer[5]. Ele acha que fé é não se aprofundar na Palavra. O autor diz o contrário, porque ele diz que o inexperiente é criança. A criança vai cair nas armadilhas de falsos ensinos. Vai atrás de heresias e de falsos pregadores que não sabem o que estão falando. Tem a mente cauterizada e pensam que já entendem tudo que a Bíblia diz.

Então o autor diz: Vocês são infantis! Vocês sempre estão tomando leite e não querem alimento sólido! O alimento sólido existe, mas vocês o rejeitam! Querem permanecer crianças na fé! Não conhecem a Palavra de Deus e quando são confrontados com a verdadeira doutrina se escandalizam.

Na criança recém-nascida existe uma rejeição natural do estômago quanto a alimentos sólidos e assim é a mente do crente infantil. A mente do crente infantil não consegue suportar doutrina sólida. Ele quer viver sempre ouvindo as mesmas coisas que os novos convertidos é que tem de aprender: Salvação em Jesus, perdão dos pecados, arrependimento, fé, batismo, o que é a Ceia, dentre outros. Isso é coisa de “novo convertido”!

Diante de uma situação como esta, o apóstolo fica impedido de ensinar mais coisas, com mais profundidade, por causa da falta de alicerce doutrinário. É uma vergonha para um crente e para uma igreja não adquirir maturidade espiritual segundo a Palavra. Parece que o tempo parou e ninguém sabe mais nada!

 

  1. UMA IGREJA INFANTIL TEM DE, POR OBRIGAÇÃO, AMADURECER (6.1-3)

Se tem uma coisa que uma criancinha não gosta de ser chamada é de criancinha. Ela não gosta, porque contraria as expectativas dela de crescer. Abala a visão que ela tem de si mesma. A visão que a criança tem de si mesma é errada e distorcida. Os adultos sabem que ela é criança (pelo modo de falar, de se comportar, de resolver as coisas), mas ela não tem essa consciência e não aceita. É como se fosse uma humilhação.

Assim é com um crente infantil, ou com uma igreja infantil. Nenhum dos dois (nem o crente, nem a igreja) gostam de serem chamados de imaturos. A igreja infantil não pode permanecer infantil. Ela não pode se acomodar e achar normal ser sempre infantil. O autor faz a crítica para que a igreja se envergonhe e cresça. O projeto de Deus para o crente individual e para a igreja é que ambos cresçam na graça e no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. É que o menino deixe as coisas de menino e se torne homem.

Esta parte do texto começa com um “por isso” que, para mim, é prospectivo. O que o autor quer é que os membros daquela igreja abandonem as coisas de menino e avancem para os conhecimentos mais profundos das coisas de Deus em Cristo. Não é que existam dois evangelhos (um para os infantis e outro para os maduros), só existe um Evangelho e uma Bíblia, mas poucos conseguem se aprofundar nas doutrinas e enxergar o mundo pelos óculos das Escrituras. Os demais, mesmo sendo crentes, ficam na parte rasa da lagoa.

Segundo o Dr. Simon Kistemaker, no seu comentário aos Hebreus, nos tempos da Reforma, os crentes que queriam ser pregadores (leigos), ou discipuladores, deveriam saber de cór os 10 mandamentos, o Credo Apostólico e o Pai Nosso e, saber explicar todas as doutrinas que existiam nestes três pontos[6].

2. Instrução sobre

a) batismos

b) imposição de mãos (ordenação, derramar do Espírito)

c) ressurreição dos mortos

d) juízo eterno

Então, diz ele: “Deixem de lado os princípios elementares da fé. Coisas que vocês já apenderam e prossigam para alimento mais sólido!”. Qual é o alimento que ele chama de infantil?

  1. A Base
  2. a) do arrependimento
  3. b) da fé em Deus

 

  1. Instrução sobre
  2. a) batismos
  3. b) imposição de mãos (ordenação, derramar do Espírito)
  4. c) ressurreição dos mortos
  5. d) juízo eterno

 

 

 

Mas existe um modo de se amadurecer. O único meio de ser uma mulher ou homem maduro, mesmo sendo jovem, e este meio está na observação dos mandamentos. As Escrituras não dão só aos mais velhos a honra de serem maduros, mas no Salmo 119.99, 100 está a prova de que maturidade espiritual não está na idade. Mas é incrível que adultos de muito tempo de fé precisem sempre de mamadeira. Crescer sempre envolve alimento sólido. Ninguém cresce saudável só com uma dieta de leite Nan!

 

IMPLICAÇÕES

  1. A culpa pela infantilidade doutrinária da igreja é dos mestres e da própria igreja. Mestres que não são mestres, porque não manejam bem a palavra da Verdade. E igrejas que só esquentam os bancos, mas não aprendem nada por décadas. Os mestres (que deveriam ser) não ensinam e enganam a igreja compensando a falta de ensino com outras coisas: abraços, beijos, visitas em demasia[7]. A Igreja se acostuma com isso e nunca cresce no que, realmente é importante: conhecimento profundo das doutrinas da Palavra.
  2. Irmãos não se deixem ser levados para lá e para cá por ventos de doutrina. Se isso tem acontecido em sua vida, ouça a Palavra, não seja negligente em ouvir. As crianças não tem firmeza em suas convicções, por isso, se deixam levar por quaisquer pessoas que chegam contando uma novidade. No caso das crianças é porque não deu tempo elas aprenderem por meio da experiência, mas no caso dos adultos é por irresponsabilidade.
  3. Que vergonha pra nós quando alguém pergunta algo simples sobre determinados textos e nós não sabemos responder. Não estou falando de textos difíceis, mas de passagens das Escrituras que, pelo tempo de fé, já deveríamos dominar. Como você vai se tornar um discipulador? Jesus manda fazer discípulos ensinando os ouvintes com aquilo que você mesmo aprendeu.
  4. Se não for para crescer no conhecimento do Senhor, por meio das Escrituras, para quê vir a Igreja? Para rever os amigos? Para cantar? Para fugir dos problemas de casa? Venha para adorar a Jesus e aprender sobre ele. Venha e aprenda para tornar-se capacitado a ensinar outrem. Se você é negligente em ouvir e aprender, vai permanecer criança.
  5. Ponha em prática o que você já aprendeu, para não esquecer e para não continuar no erro. O que você deve pôr em prática? As doutrinas aprendidas ao longo dos anos. Analise sua vida, seu casamento, suas amizades, seu trabalho a criação de seus filhos e todo resto, de acordo com o que você já aprendeu. Não é procurar base bíblica infantil para usar saias longas, mas para numa simples conversa, ou assistindo a um filme, poder perceber se algumas coisas são bíblicas ou não[8].

 

CONCLUSÃO

Nem todos nós aprendemos as coisas com a mesma facilidade, mas isso não é desculpa para morrer sem aprender. Muitos não têm aprendido não é por falta de capacidade, mas por preguiça. Quanto a esses prestarão contas a Deus. Mas os que sabem e procuram aprender cada dia mais, vão ser abençoados pelo Senhor e manter um relacionamento ainda mais íntimo com ele. Deus tem muito que nos ensinar sobre ele mesmo. Ele se apresenta na natureza, mas não é o suficiente, ele se apresenta no ser humano que criou, mas não é suficiente, ele se apresenta em cada palavra das Escrituras, mas não é suficiente, Ele é maior. Ele se apresentou em Jesus Cristo, que é sua mais bela, gloriosa e amorosa manifestação.

 

[1] KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: Hebreus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p.210.

[2] Fui professor particular (de banca) por mais de dez anos. O maior problema que eu enfrentava eram alunos que não tinham aprendido quase nada nas séries anteriores e que agora, já, noutra série, tinham de aprender assuntos mais complicados que dependiam dos que eles não tinham aprendido. O professor, nesta situação, tem de perder tempo ensinando primeiro, o assunto da série anterior, para depois, ensinar o assunto novo. Qual o resultado? Perda de tempo tanto minha quanto do aluno.

[3] Inclusive as novidades inventadas é que os crentes infantis gostam.

[4] Paulo diz que esses dons servem para que a igreja chegue a “unidade de fé”, ou seja, todos crendo nas mesmas doutrinas bíblicas. Se não há unidade de fé numa igreja devemos perguntar o que aconteceu. Será que os mestres que vieram ensinaram coisas diferentes usando a mesma Bíblia? Hoje em dia é muito provável.

[5] Há alguns dias estivemos numa cidade com outros pastores e, um irmão que já é crente há mais de quatro anos me perguntou alguma coisa sobre as diferentes igrejas evangélicas. Quando eu comecei a responder ele me disse: “Não pastor, pode parar! Eu não entendo! Eu sou novo na fé!”.

[6] KISTEMAKER, Comentário do Novo Testamento: Hebreus, p. 211.

[7][7] Um pastor conhecido meu, fez mais de 360 visitas num ano eclesiástico e foi censurado por não ter tempo de ler a Bíblia e fazer seus sermões.

[8] Aqui eu falo de uma análise Teorreferente.

2 comentários Adicione o seu
  1. Parabéns pelo texto!
    Muito edificante, palavras que expressam uma dura e cruel realidade atualmente. Que Deus continue te abençoando cada dia mais!

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