Tome a sua cruz

Por muitos anos a cruz foi um símbolo de humilhação, tortura, sofrimento, condenação e morte. A crucificação era uma morte cruel, somava a grande dor das feridas causadas pelas chibatadas, o desgaste físico de carregar uma pesada viga de madeira já no limite de suas forças, a humilhação emocional e zombarias durante todo o trajeto até o Calvário e finalizava com a luta contra a asfixia. Era extremamente difícil conseguir respirar após ser pregado na cruz.

O pior de tudo: essa condenação foi criada para manter a pessoa viva o maior tempo possível, estendendo a dor e humilhação ao máximo. Seu objetivo não era somente a morte, mas provocar medo e temor. Por esse motivo, o espetáculo precisava durar. Não é à toa que essa condenação era destinada apenas a grandes criminosos, rebeldes que ameaçavam diretamente o reinado de César e o império romano.

Assim, quando Jesus diz: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” (Mateus 16.24), sempre relacionei o “tomar a cruz” ao reconhecimento de nossa natureza pecaminosa e rebelde que luta contra o reinado de Cristo, buscando usurpar o trono para si mesmo. Reconhecer que, sem Cristo, somos culpados da mais alta infração contra Deus e que merecemos nada menos que a pior das condenações. Não há pecado que seja insignificante. Todo pecado, por menor que seja, será sempre pecado diante de Deus. Além disso, seria aqui, na crucificação, que estaríamos matando a nossa velha natureza, a “nossa carne” (Gálatas 5.24).

Não que esse pensamento esteja errado, mas hoje percebo que existe um significado muito mais profundo. Em Cristo, a cruz ganhou um novo significado, tornou-se o símbolo da maior demonstração de Amor que a humanidade já viu. “Deus demonstrou seu amor no momento em que nos curou e restaurou através da morte salvadora e substitutiva de Jesus na cruz.” [1] (1 João 4.9-10). Um ato de amor, não para resgatar homens justos e tementes a Deus, mas em favor de uma humanidade corrompida e infiel (Romanos 5.6-8). Com isso, o que antes simbolizava a morte, hoje representa a vida. Antes trazia condenação; hoje, a justificação.

Quando olhamos o texto de Mateus com essa visão, tudo muda. Jesus não queria que pagássemos um preço de algo que já havia sido [iria ser] pago por Ele mesmo (1 Coríntios 6.20). Não é uma cruz de condenação que Ele nos convida a carregar, mas sim uma cruz que transmite amor ao próximo, uma demonstração de amor que excede todo o entendimento, um amor que rompe com as barreiras da razão e da lógica. Um amor ao próximo, mesmo descrente, sabendo que ele carece da graça de Deus tanto quanto nós. É o mesmo evangelho que nos redime. Para muitos parece loucura amar quem nos odeia e orar por aqueles que nos perseguem e que só querem o nosso mal (Mateus 5.43-44), mas é exatamente isso que Cristo nos desafia a fazer ao tomarmos a cruz.

Diferente do que se imagina, o verdadeiro símbolo do amor não é um coração, mas uma cruz. Essa é a marca de todo discípulo de Cristo. É pela cruz que Jesus nos chama a esse Amor Radical.

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[1] MCDONALD, John, KELLEMEN, Bob, VIARS, Stephen. Aconselhamento Bíblico Cristocêntrico. São Paulo: Batista Regular do Brasil, 2016. p. 182-183.

Por: Werden Pinheiro

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