O jardim

É uma linda e fresca manhã de março, o céu está lindo, seu azul destacava as folhas das árvores que compunha o jardim da casa do senhor Mário, um octogenário que amava aquele recanto perdido em meio ao caos da cidade.

Ele estava ali sentado apreciando a suave brisa que é tão comum nessa época do ano. Para o senhor Mário esse era um dos maiores prazeres da vida, poder passar horas e horas naquele oásis que ele próprio havia arquitetado e construído anos antes, exatamente para esse fim, para que ali pudesse desfrutar sua velhice de maneira tranqüila vendo seus netos se lambuzarem no barro de seu jardim.

Enquanto ele estava imerso em seus pensamentos e lembranças de uma vida toda dedicada ao Deus Eterno, pôde ouvir ao fundo passos largos e decididos que caminhavam em sua direção, percebeu apenas pelo som das passadas que seu neto Afonso estava se aproximando.
De maneira calma e serena ele deu as boas vindas à amada figura que se achegava:

– Olá meu querido, como vai?! Perguntou ele

E seu neto Afonso exibindo um sorriso um tanto desconcertado responde:

– Olá vovô, tudo vai bem, graças a Deus!

Mas Mário logo percebeu que Afonso não estava totalmente bem, algo o perturbava. Ele bem sabia que seu neto se achegou ali com um propósito específico, veio buscar alguma ajuda emocional.

Afonso sempre viu no seu avô um homem sábio, íntegro e reto, que sempre tinha uma válvula de escape para toda e qualquer situação, não importando o quão adversa fosse, ele sempre tinha uma carta na manga. Afonso começou então a desenrolar seus dramas cotidianos, suas aflições, suas constantes crises de ansiedade por conta de trabalho, estudos, relacionamentos, a lista era enorme, ele só queria mesmo desabafar e sabia que seu avô era um bom ouvinte.

O senhor Mário ouviu atentamente toda a explanação de seu neto, sempre calmo e sereno. Passou então a caminhar pelo jardim e seu neto o acompanhou depois que Afonso cessou seu longo discurso melancólico. O senhor Mário estacou bem ao lado de um grande cedro e pediu para seu neto observar a imponente árvore que já tinha por volta de seus trinta anos. Afonso percebeu que seu avô iria levá-lo à profunda reflexão como de costume, passou então a procurar perceber todos os detalhes dela.
Seu avô antes de qualquer coisa fez menção de um texto bem conhecido para ambos, citou o versículo de Romanos 12:2 onde o Apóstolo Paulo exorta aos cristãos de Roma para não viverem conforme os padrões deste mundo, mas deixarem que Deus os transforme pela renovação da mente, para que possam experimentar qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (versão NA17).

Dito estas palavras ele já tinha o pano de fundo para sua reflexão, pediu então que seu neto reparasse nas folhas da árvore, algumas estavam com um verde vivo, algumas mais apagadas outras já estavam perdendo sua tonalidade verde e assumindo um amarelo amarronzado que lembra a ferrugem.

Senhor Mário pediu que o neto olhasse para aquelas folhas como se cada folha daquela fosse um pensamento, uma dificuldade, uma angústia, ou seja, pediu que ele imaginasse que cada folha como uma experiência cotidiana, e explicou que as árvores periodicamente estão dando à luz novas folhas e se desfazendo de folhas mais velhas, mas esse processo acontece com um propósito bem específico que é crucial para sobrevivência da árvore, pois as folhas funcionam como captores de nutrientes para a vitalidade das plantas, e com o tempo essa captação não funciona tão perfeitamente como deveria, por isso a planta se desfaz dessa folha e faz brotar uma nova, esse processo ajuda na renovação das plantas e em seu contínuo crescimento.

Afonso logo conseguiu traçar um paralelo nessa analogia brilhante que seu avô havia feito, ele pode perceber que todas as suas experiências por mas traumáticas ou satisfatórias que tenham sido foram essenciais naquele momento de sua vida no qual aconteceram, elas captaram “nutrientes” que forjariam seu caráter com passar do tempo, mas ele percebeu que o importante dessa reflexão era a compreensão do processo da renovação que as árvores fazem, ele percebeu que precisava se desprender das suas experiências passadas retendo tudo aquilo de melhor de cada uma, para que assim pudesse fazer brotar novas folhas de experiências e enriquecer e fortalecer ainda mais seu caráter.

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