Regeneração: Um Termo em Decadência

Regeneração

Um Termo em Decadência

Apresentação do livro “Quando a Morte Ganhou Vida” de Murilo Morais.

A pergunta de Nicodemos a Jesus: “Como posso nascer?” parece-me que continua uma incógnita nos ouvidos da igreja evangélica brasileira. Salvo exceções, o evangelicalismo na América tem conseguido sem grande esforço banalizar o fundamental termo “Regeneração”, convertendo-o em uma espécie de adesão irrefletida ao “movimento de Jesus”.

 

Certo dia, fui convidado a participar de uma “cruzada evangelística” na cidade de Fortaleza, fiquei um pouco relutante por conhecer aquele famoso tele evangelista e discordar de seus “métodos” e mensagem, mesmo assim, resolvi ouvi-lo. Chegando ao local do evento, fui conduzido a uma plataforma que me dava uma visão privilegiada e panorâmica, havia o palco principal e a frente desse palco, uma multidão de mais de vinte mil pessoas. Alguns cantores famosos apresentaram suas emocionantes canções e em fim, o pregador começou a falar.

 

Orei a Deus que aquele homem pregasse o evangelho de Cristo, aquele mesmo que Jesus pregou a Nicodemos, a mulher de Samaria, o mesmo que João Batista pregou a margem do Jordão, o que o apóstolo Paulo pregou em Corinto, Éfeso, Grécia… O evangelho de Cristo; e esse, crucificado. Grande foi minha decepção.

 

O mensageiro começou a pregar, falou do tempo. De como o tempo é importante, como devemos aproveitar a infância, adolescência, juventude e maturidade; concluiu afirmando que cada fase da vida com seus desafios e implicações precisava ser bem aproveitada. Ao final, chamou pessoas que queriam “aceitar a Jesus” para se dirigirem a frente do palco e receberem uma oração. Eureca! Esses já eram cristãos. Meus motivos para ser incrédulo a esse tipo de “regeneração” se dá pelo simples fato de que é o Evangelho o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.17).

 

Como aquela multidão iria crer em um Jesus de um evangelho que não foi pregado? Eles não ouviram falar de pecado, muito menos de arrependimento, tampouco de cruz, morte e ressureição, eles não ouviram nada sobre expiação, redenção, justificação, graça. Absolutamente nada! O resultado inevitável é o surgimento de um “cristianismo” imoral, inescrupuloso, baixo, medíocre. Obviamente, esse não é o cristianismo de fato!

 

A triste constatação é que a “Regeneração”, esse poder do Espírito Santo trazendo aqueles que estão mortos em seus delitos e pecados, para uma vida de santidade e obediência a Deus, se resumiu a uma simples afirmação de crenças, ou uma oportunidade de melhorar uma situação na vida. O objetivo de escrever sobre este tema, é a presente situação da igreja brasileira. A motivação é a própria tristeza de saber que dentro dos templos, há pessoas que não nasceram de novo, são jovens, idosos, líderes que não conhecem o Evangelho da Salvação.

 

Portanto, o presente trabalho está dividido em cinco capítulos: No primeiro, trataremos de apresentar o tema da Regeneração na história da teologia dos reformadores, tentando situar o leitor de acordo com a maneira como os principais teólogos dessa época da igreja definiam a doutrina. O segundo capítulo, tratará de mostrar ao leitor que a atuação regeneradora do Espírito Santo se encontra por toda a Escritura, Antigo e Novo Testamento. O terceiro capítulo é a exegese bíblica do texto de João 3.1-15 para chegarmos a um conhecimento mais profundo do que significa regeneração, quais suas consequências, se somos nós mesmos quem produzimos ou é obra soberana e exclusiva de Deus. O quarto capítulo de nosso trabalho é a segunda parte da exegese do texto supracitado, ou seja, uma reflexão teológica onde procuramos desenvolver e aprofundar o assunto da regeneração firmada na resposta da primeira parte da exegese no capítulo três. O quinto capítulo tratará de contextualizar o tema, mostrando a igreja de nossos dias sua relevância doutrinária e os equívocos teológicos que o permeiam.

 

A presente obra não se propõe a exaurir o assunto, servirá apenas como auxílio no esclarecimento sobre a atuação do Espírito Santo na regeneração do ser humano, e como este ensino foi compreendido ao longo da história da igreja e quais suas implicações para a igreja no momento atual. Para isso, a exegese do texto bíblico que já foi citado acima, se faz necessário, devido a sua significância para um estudo mais apurado do tema. O texto bíblico de João 3 1-15 está escrito na forma de diálogo, onde Nicodemos e Jesus se encontram e conversam sobre o novo nascimento, nesse texto vemos a expressão de desconhecimento deste fariseu diante das respostas de Jesus.

 

No entanto sabemos que este desconhecimento demonstrado por esse doutor da lei, era devido a sua “outra forma” de servir a Deus que se baseava na instituição. No texto que estudamos, percebemos que o objetivo de Jesus era chamar o povo a uma verdadeira união com Deus  que acontece por meio da regeneração que é operada pelo o Espírito Santo, o agente enviado por Deus Pai e Deus Filho no intuito de realizar a grande mudança que não se pode ser feita mediante os ritos religiosos.

 

Nicodemos é um modelo de uma compreensão no abismo do fracasso, a ida dele até Jesus durante a noite, nos mostra que ele estava nas trevas, precisando de uma orientação. Trevas aqui como significado de falta de compreensão espiritual, onde somente o Espírito pode dar. O que Jesus mostra a Nicodemos é a sua real condição natural, morto em seus delitos e pecados, destituído de Deus e Sua glória. A religiosidade autossuficiente de Nicodemos, não o trouxe para mais perto de Deus, ele precisava nascer da água e do Espírito; e isso, ele e sua religiosidade não eram capazes de produzir.

 

 

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