Reciprocidade, graça e a dinâmica dos relacionamentos.

Introdução:

Grande parte das relações humanas são baseadas em reciprocidade – correspondência mútua, troca. Salvo exceções, como os vínculos baseadas em amor incondicional, entre uma mãe e seus filhos, por exemplo. Toda relação interpessoal é movida, em certa medida, por interesse – e não que isto seja de todo mal, visto que a palavra “interesse”, em si, carrega uma conotação negativa. O fato é que somos seres sociais. Dependemos da relação com outras pessoas para sobreviver, desenvolver nossa personalidade e certificar plena saúde mental. Nada mais natural. Desde os primórdios, homens e mulheres de todas as raças, tribos, povos e nações têm cultivado a filosofia da reciprocidade em seus relacionamentos.

Podemos perceber quão presente é esta faceta da vida comum, quando enfrentamos situações corriqueiras. Quem nunca ouviu um sonoro: “você precisa se amar mais, ter amor próprio!”; “não esquenta, ele (ou ela) não te merece, você se doou muito e não recebeu o que devia em troca!”? A ideia de proporcionalidade parece estar sempre em jogo nas relações humanas: de dar conforme se recebe, de doar de acordo com aquilo que se espera do outro. Não há maior insulto, hoje em dia, que não receber nada além daquilo que se espera de alguém. Os indivíduos do século XXI – em especial – tem uma estima elevada. São autoconfiantes, autossuficientes e prepotentes. Estas características são uma forte evidência de nossa queda em Adão.

Reciprocidade & graça na relação com o divino:

Muito naturalmente, o conceito de reciprocidade manifesta-se na dimensão religiosa, na correspondência entre o humano e o divino, em que o servo faz algo esperando a “merecida” recompensa de seu senhor. Há uma linha tênue entre sacrifício humano e favor divino na “cultura religiosa”. Vemos isto desde a Grécia antiga – de deuses antropomorfizados, que esperavam que seus súditos lhe oferecessem oferendas e lhe prestassem serviços para, então, entregar-lhes a respostas de suas petições – até os dias de hoje, de “campanhas da vitória”, ofertas em “fogueiras santas” e “trízimos” pregados por pastores da prosperidade – de um deus obrigado (literalmente) a satisfazer desejos e sacrifícios humanos. Um deus condicionado à criatura.

O Deus da Bíblia, por sua vez, não espera nada de nós. Não confia e não precisa de nós. “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jeremias 17.5). Isto não quer dizer que Deus não reage a nós ou não exija que andemos conforme aquilo que Ele revelou em sua Palavra. Todavia, até nossas boas obras são pura manifestação de seu poder, misericórdia, amor e graça. Deus não precisa de nossos sacrifícios e promessas tolas; e não temos nada a barganhar. Ele é autossuficiente! Cada respiração, cada batida de coração, cada segundo de vida é fruto de Sua graça concedida aos homens. O sol nasce sobre bons e maus, a chuva é derramada sobre justos e injustos. O grande propósito de Deus é honrar Seu Nome, agindo em perfeita harmonia com Seu caráter santo e imutável.

Atualmente, um falso evangelho de um falso deus é pregado. Uma religião fundada em barganhas estúpidas. Nosso relacionamento com Deus não pode estar baseado em “bênçãos”, pois somos chamados a nos entregar à causa desta mensagem de vida, por mais que custe nossa autossuficiência. Deus exige nada menos que nossas pretensões. Quebra o orgulho humano. O Senhor nos fere e nos sara. Conduze-nos até reconhecermos que somos pó, salvos somente por sua graça, mediante a fé. Isto não vem de nós, é dom de Deus. Não vem por obras, para que ninguém se glorie! (Efésios 2: 8-9). Milhares de cristãos obedientes não deixaram de padecer ao longo da caminhada. Outros milhares foram martirizados, e ainda são, por causa do Evangelho.

O que precisamos entender é que nem sempre Deus irá retribuir segundo nossa obediência, pois nem sempre retribui de acordo com nossa desobediência, uma vez que todos carecem de Sua glória e mereciam, por natureza, o inferno: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.” (Romanos 3.23). Precisamos perceber quão séria é esta afirmação! Sejamos obedientes! Não buscando algum tipo de favor, mas como gratidão por aquilo que Cristo já fez, para que outros sejam alcançados, conforme o soberano propósito do Criador.

Reciprocidade & graça nas relações humanas:

Jesus revelou Deus encarnado. O Deus conosco – Emanuel. Ele foi o exemplo de vida perfeito, o próprio Filho de Deus, o próprio Senhor. No Sermão do Monte, Seu maior discurso para os homens, Cristo condena algo bem humano: o “tratar o outro como ele me trata” – isso nos parece tão inocente e tão correto! A reciprocidade, por fim, faz a gente basear nossas relações sobre nós mesmos: “a quem me faz bem, eu faço o bem”. Ela omite nada menos que a relação interna do homem com Deus.

A relação com Deus tem como cerne a “não reciprocidade”: “amem os seus inimigos… para que sejam filhos de Deus” (Mateus 5.43-45). O Senhor nos predestinou para que andássemos em santidade e amor, sendo conformados à imagem de seu Filho (Efésios 1.4-5). Através do Evangelho, Cristo reduz nosso conceito de justiça própria a “trapo de imundícia”! (Isaías 64.6). Isto chama-se popularmente: “o que eu acho que o outro merece receber por agir de tal forma para comigo”. Jesus apresenta-nos nada menos que sua graça! Deus é generoso, perdoador e bom. Portanto, estas serão marcas daqueles que conhecem a sua condição humana fundada em sua relação com Ele.

Ser cristão é ser um “pequeno Cristo”, um seguidor do Mestre, com um caráter baseado na figura do próprio Senhor. Por esta razão, toda nossa percepção de mundo é alterada. Devemos nos livrar, de uma vez por todas, de conceitos como “reciprocidade” e “amor próprio”. Tratar com amor os que não merecem, pois recebemos amor quando não merecíamos: “Mas Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós” (Romanos 5.8). Ser cristão é perdoar o imperdoável, pois o “imperdoável” torna-se nada em vista do quanto fomos perdoados na cruz! De modo que quem não perdoa não encontra perdão diante de Deus (Marcos 11.15-16). Ser cristão é revelar o caráter de Cristo por meio de um entendimento correto do Evangelho de Jesus, por intermédio da obra operada pelo próprio Deus. Que estejamos atentos a glorificar a Deus em tudo, sendo a resposta que este mundo caído necessita.

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