Tesouros perdidos de um Evangelho banalizado.

Lembro-me da primeira viagem que fiz em família para a Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. O lugar é uma região praiana, com belíssimas paisagens naturais, muito a se explorar. E ali eu estava, um pré-adolescente deslumbrado, indo além das fronteiras já tão batidas de minha cidade natal, uma cidade maravilhosa, diga-se de passagem. A cidade do Rio é lindíssima, assim como o paraíso para o qual seguia viagem.

Estava tomado de tanto entusiasmo e encanto, que quase não conseguia me conter. Fixado, com os olhos grudados na janela do carro – não queria perder nenhum detalhe! Foram horas de contemplação até o destino final. Observei minha mãe cochilando no banco do carona e, incrédulo, me perguntava: “como consegue dormir em meio a tanta beleza?”. Foram dias memoráveis e encantadores. Anos mais tarde, acostumado com o trajeto, me peguei no sono que o meu “eu mais jovem”, fascinado, criticara. Acontece que havia me habituado à paisagem. Tudo era tão comum quanto a tradicional viagem a Búzios. Eu cresci; e aquela beleza já não saltava aos olhos. Mas por que estou lhe contando essa história, caro leitor?

Há belezas, tesouros no Cristianismo. Verdades tão inefáveis, que a eternidade não nos será suficiente para compreendê-las. Permaneceríamos estarrecidos apenas em trazê-las à memória. Estas pérolas, porém, parecem ter perdido seu real valor. Não que tenham perdido seu valor intrínseco (isto nunca irá acontecer), mas tornaram-se banais. Não mais são vislumbradas com o senso de reverência e deslumbramento que merecem, seja por incapacidade espiritual de discerni-las, seja por estarmos habituados demais a elas – e isso é uma armadilha perigosa.

Os seres humanos são especialistas em criar deuses para si, conforme suas inclinações (vide Êxodo 32). É triste constatar que a deficiência no entendimento e na pregação do Evangelho genuíno tenha produzido tantos falsos crentes. Pessoas que pensam conhecer a Deus, mas que perderam de vista verdades fundamentais reveladas em Sua Palavra. Consequentemente, adoram a um deus fabricado por suas mentes, de acordo com suas percepções e achismos.

Por outro lado, há cristãos que parecem viver como se fossem ateus. A beleza de Cristo já não os comove, não há reverência pela pessoa de Jesus, muito menos preocupação em praticar o que a Bíblia diz. Desprezam o Deus das Escrituras, mesmo professando “fé” nele! Deus enviou seu único filho para pagar o preço por nossas iniquidades – a ira de Deus cairia sobre nós. Ele nos reconciliou, revelou um caminho de comunhão e santidade. Onde estes cristãos estão diante desta mensagem? Dormindo.

Há uma verdade, em especial, que a igreja simplesmente se acostumou a escutar, perdendo de vista sua seriedade: “…portanto, todos pecaram.” Romanos 3.23. Por que não trememos diante disso? Porque não sabemos quanto essa é uma realidade terrível e apavorante. Não percebemos que o pecado foi responsável pela cruz! Deveríamos estar chorando por nossos pecados!

Outro fato vilipendiado pela grande maioria das pessoas é: Deus é justo. Isto nos parece tão bom… Todos querem um Deus justo governando, um ser que não tolere a injustiça e a maldade. Se soubessem, porém, o que a Bíblia ensina sobre quem somos, estariam arrependidos.

O Senhor olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos e igualmente se fizeram imundos: não há quem faça o bem, não há um sequer. Salmos 14.1-3.

Somente o sacrifício expiatório do Filho de Deus é capaz de livrar-nos do justo castigo que merecíamos. A graça que recebemos para a salvação é um dom de Deus! Mas por qual razão não nos humilhamos com temor diante desta afirmação? O Evangelho da Graça é menosprezado, enquanto o “Evangelho do Ego” é exaltado. A igreja moderna desconhece o caráter de Deus e, por isso, desnivela seus atributos. Exaltam seu amor em detrimento de sua santidade. Sim, Deus é amor. Quem não quer servir a um Deus de amor? A Bíblia nos ensina que Ele não é mais amor que justiça. Pois quem deseja um Deus que se ira contra o pecador (Salmos 5.5)? O amor de Deus é justo e justificador, por este motivo colocamos nossa fé em Jesus – sobre o qual a justiça de Deus foi imputada para perdão das ofensas.

Glórias a Cristo, o Deus encarnado. O Deus que morreu, ressuscitou e está vivo! Ele vive e reina para todo o sempre! Se isso não o faz regozijar e tremer dentro de si mesmo, nós temos um problema. Deus tenha misericórdia de nós, pois vivemos num tempo de incredulidade – mesmo por parte dos que dizem “acreditar em Deus”. Oremos para que os tesouros escondidos do Evangelho voltem a ser magnificados. Tornem a encher nossos olhos de lágrimas, nosso coração de temor e nossa mente de arrependimento. Que Deus, conforme seu querer, derrame contrição sobre este povo. Que Ele tenha misericórdia. Caso contrário, muitos estarão perdidos.

Quem crê no Filho tem a vida eterna; aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele. João 3:36.

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