A ENCARNAÇÃO DE CRISTO E A MISSÃO DA IGREJA: Uma mensagem contextualizada

A ENCARNAÇÃO DE CRISTO E A MISSÃO DA IGREJA: Uma mensagem contextualizada

 

Compreendemos missão nas seguintes categorias: É uma iniciativa de amor da parte de Deus para conosco, é o amor gratuito e a presença não manipulável de Deus no mundo. É a missão do verbo que se fez carne na pessoa de Jesus Cristo que se contextualizou no mundo e na igreja através do Espírito Santo. É um ato de renúncia para a realização de uma ação missiológica em favor da humanidade.

Segundo escreveu Sherron Kay em sua obra: Um novo paradigma da Missão para o Século 21:

 

Missão, diz respeito às relações entre Deus e o mundo (…) Vocacionada [a igreja] é co-participante da própria ação de Deus no mundo, que visa salvar e libertar a humanidade. Sua tarefa como enviada é ver, ouvir, chamar, orientar, ajudar e tornar-se solidária como parte do testemunho daquela ação de Deus.
(Sherron 2004, p. 17).

 

Assim proposto, compreendemos que para haver uma ação solidária de Deus em favor do ser humano, se faz necessário que haja antes uma inserção contextualizada.

De acordo com Timóteo Carriker, a contextualização é a expressão e realização vital do Evangelho dentro do contexto pessoal social, eclesiástico, político, econômico e evangelístico. Por esta razão, o evangelho contextualizado, precisa desenvolver “caminhos” pelos quais o mesmo possa responder às necessidades da vida humana. Isso significa que a mensagem do evangelho precisa ser capaz de oferecer uma resposta à experiência humana como um todo, tanto nas dimensões materiais como nas não-materiais da existência. (CARRICKER, 2008 Pp 95-97)

A partir desta concepção podemos concordar com David Bosch quando diz que a “contextualização é uma afirmação de que Deus volta sua atenção para o mundo através do evangelho”. Este evangelho é a boa notícia de que Deus veio em alcance do homem. (BOSCH, David, 2000, pp 290)

Para esta realidade acontecer, Ele se inseriu na historia humana. Diria que Deus se contextualizou em Jesus Cristo através da encarnação, para nos aproximar Dele de maneira que pudesse revelar-se “do lado de dentro” da historia humana.

Há uma compreensão de forma geral segundo Nicholls, que sem contextualização, não há verdadeira comunicação. Em virtude da própria natureza do evangelho, somente conhecemos o evangelho como uma mensagem contextualizada na cultura. Nem a interpretação nem a comunicação do evangelho se realizam no vácuo. (NICHOLLS, Bruce J. 1983. Pp 96-110)

O evangelho envolve anúncio de Jesus Cristo, como Senhor da totalidade do universo e da existência humana. E tem como objetivo, responder aos desafios apresentados pelo seu contexto no qual está inserido.

Se este evangelho não se dirige as necessidades e problemas específicos no contexto em que ele este inserido, deixa de ser mensagem de Deus. Logo, sem uma contextualização do evangelho não há comunicação real da palavra de Deus. (PADILHA , 1992 94-96)

A contextualização do evangelho só é possível mediante a ação de Deus através de Cristo. Através deste ponto de vista torna se obvio aproximação de Deus à revelação de Si mesmo e dos seus propósitos.

A proposta de Deus através da encarnação em Jesus Cristo é proclamar um evangelho que se identifique com as necessidades do ser humano, que o aproxime de Cristo. A fim de que o ser humano conheça através desse evangelho, o Deus que em Jesus Cristo se fez homem, se contextualizou agindo como servo.

Ao observarmos o evangelho de João 13.14-15, temos ali o exemplo de Deus que em Jesus Cristo se coloca na posição de servo lavando os pés dos discípulos. Ali, Ele nos deixa o exemplo de como devemos viver em comunidade. Esta atitude de Jesus deve determinar o procedimento dos discípulos entre si. Isto é, de terem a mesma disposição para o serviço recíproco e de agirem igualmente para com as outras pessoas. (LADD, 1984 Pp 204-206)

Isto dito, somos desafiados como igreja evangelizadora a apresentar ao mundo um evangelho contextualizado, que apresente uma mensagem de amor e que conduza as pessoas a reproduzirem a vida de Jesus, o servo sofredor que abriu mão de tudo para ter um relacionamento mais profundo com a humanidade tanto em palavras, como também em ações.

Ao invés de tentarmos fugir à nossa responsabilidade e missão, precisamos abrir os ouvidos e escutar a voz daquele que conclama Seu povo em todo tempo a sair (assim como Ele o fez) para o mundo perdido e solitário, para poder viver e amar, testificar e servir como Ele e por Ele. Missão é a nossa resposta à convicção de que cristo nos envia ao mundo para socorro do perdido, como o Pai a Ele o enviou.

A vocação de Jesus à sua igreja ainda é a do engajamento. E, como se engajar significa envolver-se, rodear-se, abraçar as sujeiras e podridões da sociedade em que vivemos, mesmo que com isso, venhamos a cheirar mal, então esse chamado precisa ser recheado com um amor reconhecedor da graça de Jesus e sua maneira de lidar com o ser humano, por um coração cheio de misericórdia, daqueles que também foram recebidos com misericórdia, e pela compaixão.

Como diz o evangelista Mateus em 9.36: “Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas, como ovelhas sem pastor”. Quando visualizamos a sociedade de nossos dias (não trancafiados em nossos prédios), na mais dura realidade em que ela está inserida, o que avistamos? Que tipo de reação deveria ser provocada em nosso coração por aquilo que vemos? Afinal de contas, como definir as multidões de nosso tempo? E mais, como o poder transformador do evangelho poderá alcançá-las?

É Jesus quem nos convida a vivenciarmos o modelo do Cristo, onde a Igreja deve exercer um ministério encarnacional de profunda identificação pessoal e social. Somos desafiados a encanarmos a vida do Messias, que se aproxima e se faz presente através do evangelho. Aquele que se e identifica com o sofrimento humano e que faz sacrifício para que este sofrimento se dissipe.

Sendo assim, resta para nós uma escolha: “… quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo” (Mateus 20. 26-27).

Ágape é o amor transbordante. Se estivermos cheios dele, devemos então derramá-lo em outras vidas. Lembro-me de uma canção do poeta e cantor João Alexandre que afirma: “Enquanto se canta e se dança de olhos fechados, tem gente morrendo de fome por todos os lados. O Deus que se canta nem sempre é o Deus que se vive não, pois Deus se revela, se envolve, resolve e revive”.

Precisamos conhecer melhor o Deus a quem dirigimos tantos sacrifícios de louvor e adoração. Adorar é muito mais do que temos ensinado nas igrejas, inclui obediência a missão; tem muito mais a ver com o ser de Deus e sua natureza operando em nós pelo Espírito, que com nosso desejo, sincero ou abominável de barganhar com ele e de tentar agradá-lo. Todos os “agrados” que Deus poderia receber já foram dedicados por Jesus na cruz. Está consumado! Todo louvor, glória e adoração, daí pra frente, devem ser produto da graça em e por meio de nós. Do contrário, lembrando-se das palavras de Jesus, nossa justiça em nada excede à justiça dos escribas e fariseus.

Deus não requer sacrifícios! Ele disse: “Misericórdia quero, não sacrifício, o conhecimento de Deus mais do que os holocaustos” (Os 6.6). Ele não joga nosso jogo sujo das barganhas humanas. É necessário muita consciência do compromisso cristão, e mais ainda, uma conexão da vida com, justiça, paz, liberdade, envolvendo-se, engajando-se. Se cantar o amor de Deus é bom, melhor ainda é viver. Que ele nos encha de discernimento e coragem. Deus quer muita ortodoxia (doutrina certa), só que mais ainda, ortopraxia (prática certa). Uma tem que ser resultado da outra.

 

Murilo Morais

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