Cuidado com a Síndrome de Fariseu

Cuidado com a Síndrome de Fariseu

Fariseus e escribas diziam: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo”. Esse era realmente o ensino deles, sem tirar nem pôr. (LLOYD-JONES..1984, p. 279) Este acréscimo e omissão, deliberadamente estreitam tanto o padrão do amor (deixando de fora as palavras cruciais “como a ti mesmo”, que elevam imensamente o padrão) quanto os destinatários desse amor (qualificando a categoria de próximo com a exclusão específica dos inimigos e acrescentando a ordem de odiá-los).  Essa perversão é “gritante” porque injustificada, apesar dos rabinos a defenderem como uma interpretação legítima. (STOTT, 1989, p. 114)

Eles apegavam-se ao contexto imediato da inconveniente ordem de amar o próximo, destacando que Levítico 19 dirigia-se “a toda a congregação do povo de Israel”. São instruções para os israe­litas sobre seus deveres para com seus pais e, de maneira mais ampla, para com seus “próximos” e seus “irmãos”. Não deviam oprimi-los nem roubá-los, qualquer que fosse a sua posição social. “Não aborrecerás a teu irmão no teu íntimo. Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo” (vs. 17,18).

Era bastante fácil para a ética farisaica (consciente ou incons­cientemente ansiosa em aliviar o peso deste mandamento) torcê-lo para sua própria conveniência. “Meu próximo” argumentava, “é alguém do meu próprio povo, um companheiro judeu, de minha própria parentela, que pertence a meu povo e à minha religião. A lei nada diz sobre estrangeiros ou inimigos. Portanto, considerando que o mandamento é de amar apenas o meu pró­ximo, posso aceitar como permissão, até mesmo injunção, odiar o meu inimigo, pois ele não é meu próximo para que o ame”.

O raciocínio é bastante razoável para convencer aqueles que querem ser convencidos, e para confirmá-los em seu próprio preconceito racial. Mas é uma racionalização, e bastante enganosa.

Eles evidentemente ignoravam a instrução anterior, dada no mesmo capítulo, de deixar as respigaduras dos campos e das vinhas “para o natural e para o forasteiro”, que não era judeu, mas um estrangeiro residente, bem como a declaração inequívoca contra a discriminação racial, no final do capítulo: “Como o natural será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos” (v. 34). Do mesmo modo, “a mesma lei haja para o natural e para o forasteiro que pere­grinar entre vós”.

Eles também não atentavam para os outros mandamentos que regulavam a sua conduta para com os inimigos. Por exem­plo: “se encontrares o boi do teu inimigo, ou o seu jumento, desgarrado, lho reconduzirás. Se vires prostrado debaixo da sua carga o jumento daquele que te aborrece, não o abandonarás, mas ajudá-lo-ás a erguê-lo”. (STOTT, 1989, p. 115) Instruções quase idênticas foram dadas em relação ao boi ou jumento de um irmão, indicando que as exigências do amor eram as mesmas para com os animais que pertenciam a um “irmão” ou a um “inimigo”. (CHAMPLIN, p. 317)

Os rabinos também deviam saber muito bem os ensinamentos dos Provérbios, que o apóstolo Paulo citaria mais tarde como ilus­tração de como vencer o mal ao invés de se vingar: “Se o que te aborrece tiver fome, dá-lhe pão para comer; se tiver sede, dá-lhe água para beber”.

Levítico 19:18 fala que o amor ao próximo é um mandamento de Deus. “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”. Mateus 22.35-40 acrescenta que “este é o grande e primeiro mandamento” e que “o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Por fim, também afirma que “destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.35-40). As palavras “e odiarás o teu inimigo” foram um “acréscimo para­sita” à lei de Deus feita pelas autoriades religiosas.

Era provável que o “inimigo” fosse sinônimo de gentio. Maimonides mostra a atitude da população em geral dizendo que se um judeu vir um gentiu cair no mar, não deve ajudá-lo de modo algum; porque está escrito: “Não te levantarás contra o sangue do teu próximo, mas esse gentio não é teu próximo”. Há muitas citações horríveis desse tipo na literatura dos judeus. (CHAMPLIN, p. 317) Deus não ensinou ao seu povo um padrão duplo de moral, um para o próximo e outro para o inimigo.

Assim, Jesus contestou aquela adição como grosseira distorção da lei, que era: Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos (v. 44). Pois o nosso próximo, como ele mais tarde exemplificou tão claramente na parábola do bom samaritano, não é neces­sariamente um membro de nossa própria raça, classe social ou religião. Pode até nem ter qualquer ligação conosco. Pode ser nosso inimigo, que está à nossa procura com um punhal ou com uma arma de fogo. Nosso “próximo”, no vocabulário de Deus, inclui o nosso inimigo. O que o faz ser nosso próximo é simplesmente o fato de ser um ser humano em necessidade, da qual tenhamos tomado conhecimento, estando em nós à possi­bilidade de aliviá-la de alguma forma.

Qual é, então, a nossa obrigação para com o nosso próximo, seja amigo ou inimigo? Temos de amá-lo. Mais ainda, se acres­centarmos as cláusulas da narrativa do Sermão do Monte em Lucas, o nosso amor por ele será expresso em atos, palavras e orações. “Amai os vossos inimigos”.

Quando visamos o bem estar de todos, isso está em harmonia com a prática do próprio Deus de conceder o sol e a chuva sobre justos e injustos e também se harmoniza com a prática de Jesus durante seu ministério terrestre, quando curou as pessoas que eram levadas a ele (Lc 4.40).

A linguagem solene em João 13, versículo 3 prepara-nos para um ato de majestade divina. Jesus consciente da soberania universal que o Pai lhe conferiu, plenamente ciente da Sua origem e destino celestiais, faz algo que deixará no coração dos discípulos, um sinal inextinguível desta origem divina. Ele se veste como empregado da casa e pratica tarefas de subordinado. (BRUCE. F.F, 1987, p. 270)

Qualquer um dos discípulos teria realizado com prazer esse serviço para Ele, mas o ato do próprio Jesus em fazê-lo, poderia significar para os discípulos uma admissão de inferioridade, intolerável diante da intensa competição que havia entre eles. Lucas acrescenta um elemento interessante descrevendo como a disputa deles pelo lugar principal, provocou em Jesus algumas palavras sobre os verdadeiros padrões de grandeza e um apelo para olhassem para o seu próprio exemplo de amor e renúncia: “…no meio de vós, eu sou como quem serve” (Lc 22. 24-27).

Nenhum modelo deve ser seguido se não evidenciar o amor. Todo o modelo de seguimento deve ser fundamentado no amor e pelo amor, sendo assim, o amor deve ser a maior motivação para uma vida pratica. (ALMEIDA,1989 Pp 88-91)

Ser cristão, portanto, é adentrar ao Reino de Cristo, e fazer parte da vida de Jesus que assume a nossa existência e vive em tudo semelhante a nós, é amar até as ultimas consequências. (João 13.1).

 

Murilo Morais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *