Porque cedemos à tentação de um evangelho Desencarnado

PORQUE CEDEMOS À TENTAÇÃO DE UM EVANGELHO DESENCARNADO

 

Quando refletimos sobre o evangelho, encontramos uma mensagem que nos revela um Deus santo, que ama e que sacrificou o seu único Filho para que os homens, conscientes do seu pecado, tivessem a oportunidade de serem alcançados pela misericórdia de Cristo. Porém, este evangelho quando anunciado gera no ser humano mudança de comportamento, atitude e compromisso, levando-o a viver emoldurado de acordo com a vida de Jesus.

Porém, nessa fase da modernidade (modernidade tardia), a experiência pessoal e a emoção são tudo. O cristianismo sofreu profundas influencias dessa cultura de bem estar pessoal e a mensagem da cruz se tornou a mensagem dos prazeres. Trata-se de um evangelho antropocêntrico, que perdeu o seu foco conduzindo o ser humano a o centro das atenções, compreendendo um deus que cede com mais facilidade ao capricho da vontade humana em trocar a busca pela glória de Deus e satisfação em Cristo, por seus próprios interesses particulares e egoístas.

O que temos visto através dos fatos apresentados acima é a pregação de um evangelho anticristão, que proporciona certas vantagens às pessoas que buscam o favor de Deus para conseguirem os seus objetivos. Esse é um evangelho desvinculado da intimidade com Deus que não se impõe nem produz mudança de caráter na vida da pessoa crê.

Diria que a proclamação dessa mensagem é terminantemente falsa, pois, apresenta um deus utilitarista, que é apenas solucionador de problemas, um deus que promete, mas não cumpre, que diz que você sairá vitorioso em tudo o que fizer e que você não vai sofrer, pois “crente não sofre”. E ainda promete que nunca padeceremos de necessidades, que seremos financeiramente prósperos.  Este tipo de evangelho tem conduzido o ser humano a ter um tipo de atitude hedonista que busca a satisfação nos prazeres fúteis e passageiros desta vida. (Mckenzie, 1983 Pp 284-286)

Nesta perspectiva, até Deus é um meio para atingir determinados fins. Tudo existe para promover a felicidade do homem.  Todos querem desfrutar de prazeres imediatos e sem nenhum ônus ou responsabilidade com a vida cristã. Por esta razão, existem os mais diversos “remédios” que resolvem de maneira instantânea, o problema da dor física e ainda podem prolongar por mais tempo as sensações de satisfação. Mas é uma grande ironia que onde este evangelho que anuncia receitas mágicas e instantâneas para a felicidade, as igrejas estão cheias, porém, as pessoas continuam com os mesmo sofrimentos e angústias.

O problema é que nós estamos mal acostumados e desejamos viver uma pregação que satisfaça a nossas necessidades, que não confronte nossa conduta. Queremos uma mensagem que nos ofereça tudo sem precisarmos fazer nenhum tipo de renúncia ou sacrifício. É o evangelho do privilégio, do receber, do ser abençoado, das necessidades supridas, mas não o que exige de nós responsabilidade, renúncia e sacrifício.

José Comblin estava completamente certo quando disse que “o evangelho faz de nós o que não fazemos de nós mesmos”, pois, falar da mensagem da cruz, como um objeto exterior, longe de mim, é fácil. Mas falar de um evangelho que requer uma mudança de vida diária é bastante desafiador, porque, o evangelho não aponta para meras sensações e reações epidérmicas, mas para uma conscientização de servir ao Senhor da seara e isso implica em total engajamento da vida na obra de Cristo. (Comblin, 1995 Pp. 85-86)

Esta compreensão errônea do evangelho apresenta um Deus que dispõe todo seu poder a nosso serviço para dar tudo o que desejamos. Estas mensagens têm, em muitos casos, substituído a mensagem de salvação. Fala-se mais em realizações pessoais do que em pecado e santidade ou intimidade com Deus e relacionamento com o próximo.

Fico triste em pensar que este tipo de “cristianismo” tem sido muito procurado por que oferece soluções imediatas. Infelizmente essa manobra superficial esta impedindo que ocorra uma das coisas que Deus criou de mais belo: a comunhão e a parceria de amor entre a criatura e seu Criador.

Se a mensagem da cruz for garantia de riqueza material, então sabemos que Jesus não conheceu o evangelho. Pois a proposta de Jesus foi e é anunciar o evangelho que nos conduz a uma profunda vida de comunhão obediência e intimidade com Deus.

 

Murilo Morais

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  1. A mensagem antropocêntrica, por não ser confrontadora, age como uma massageadora de ego humano. Faz do cristão, u bebê que engatinha em um playground de imaturidade. Muitos dos que se dizem pregadores, sabendo dessa deficiência no meio cristão evangélico, se aproveitam dessa situação, usam de manipulações das mais possíveis e imagináveis. Deturpado e mercadejado, é assim que fazem do evangelho do Senhor. Mas graça ao Todo poderoso, que vem chamando e capacitando verdadeiros arautos com mensagem cristocêntricas. Sim, ainda existe antídoto

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