Teologia Bíblica e Botânica. Que tem a ver?

Botânica, jardins, árvores, um agricultor e Teologia Bíblica.

Este é o principal assunto da Bíblia?

 

Estava em minha casa lendo a Bíblia e disse: Eureca! A Bíblia é um livro sobre botânica! Mas vou tentar explicar logo, porque você pode me achar uma pessoa estranha só pelo título.

No início, Deus plantou um jardim e um jardim é um lugar com árvores! Claro que sim! A história diz que, neste jardim, havia duas árvores importantes: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. O casal que o Senhor criara e pusera no jardim do Éden, comeu do fruto da árvore que Deus havia ordenado não comessem. A consequência foi devastadora. Essa parte da história ficou conhecida, pelos teólogos, como Queda.

Por causa da desobediência – de comer do fruto daquela árvore – os seres humanos morreram espiritualmente, foram afastados de Deus. Eles também se afastaram um do outro, ou seja, seu relacionamento já não era mais o mesmo. Também romperam relacionamento com o restante da natureza (isso fica claro quando vemos o que somos capazes de fazer com as florestas e os animais); por fim, os seres humanos romperam relações dentro de si mesmos. Não conseguimos nos controlar, pensamos uma coisa e fazemos outra, tentamos melhorar e pioramos cada dia mais. Fomos separados de nós mesmos. Vou dar os méritos deste meu raciocínio a Francis Schaeffer.

Expulsos do jardim, o primeiro casal não podia mais se aproximar da árvore da vida. Essa árvore foi reservada para milênios depois.

Tempos depois, Noé, já após o diluvio, plantou várias árvores que foram mal usadas por ele. Plantou uma vinha e do seu fruto se embriagou (Gn 9.20, 21), por conta desse incidente, um dos filhos de Noé chamado Cam, viu a nudez de seu pai – um grande pecado naqueles tempos. Cam foi amaldiçoado junto com toda sua descendência (Gn 9.24-27).

Quando continuei lendo percebi que Deus constituiu um povo para si a partir de um homem chamado Abraão. Ele funcionou como uma espécie de semente para uma árvore enorme. A árvore começou apareceu em forma de um povo, os hebreus, mais tarde israelitas. E como “a Bíblia é um livro de botânica e sobre árvores”, ela mesma dá essas características a Israel.

Um salmista escreveu que Deus trouxe “uma vinha do Egito; lançaste fora os gentios, e a plantaste” (Sl 80.8). Este povo que saiu da semente chamada Abraão é retratado como uma árvore, como uma vinha plantada pelo próprio Deus. Deus a retirou de um lugar e replantou noutro lugar melhor.

Esta árvore deu muito trabalho ao bom dono da vinha. Ele pensou várias vezes em desistir de cuidar dela, de protege-la e de adubá-la. Por meio de um de seus ajudantes ele disse, de modo poeticamente frustrado:

O meu amado tem uma vinha num outeiro fértil. E cercou-a, e limpando-a das pedras, plantou-a de excelentes vides; e edificou no meio dela uma torre, e também construiu nela um lagar; e esperava que desse uvas boas, porém deu uvas bravas. Que mais se podia fazer à minha vinha, que eu lhe não tenha feito? Por que, esperando eu que desse uvas boas, veio a dar uvas bravas? Agora, pois, vos farei saber o que eu hei de fazer à minha vinha: tirarei a sua sebe, para que sirva de pasto; derrubarei a sua parede, para que seja pisada; e a tornarei em deserto; não será podada nem cavada; porém crescerão nela sarças e espinheiros; e às nuvens darei ordem que não derramem chuva sobre ela. Porque a vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta das suas delícias; e esperou que exercesse juízo, e eis aqui opressão; justiça, e eis aqui clamor (Is 5:1,2, 4-7).

Por meio de outro trabalhador, o dono da plantação disse a mesma coisa: Eu mesmo te plantei como vide excelente, uma semente inteiramente fiel; como, pois, te tornaste para mim uma planta degenerada como vide estranha? (Jr 2:21). A planta estava se tornando difícil de se lidar e as ameaças que vinham sobre essa árvore não pararam.

Depois de muitas tentavas de se lidar amorosamente com a árvore e tudo que ela significava, o dono da vinha cumpriu o que vinha prometendo. Quando o castigo estava no seu auge, o dono da vinha falou mais uma vez com um dos servos, assim como fizera anteriormente. A esse servo, o dono da vinha disse: “E agora está plantada no deserto, numa terra seca e sedenta” (Ez 19:13). A vinha estava num lugar desolado. Ela para nada mais prestava. Não deu os frutos esperados. Seu fim estava próximo.

Se o dono da vinha não tivesse um plano desde sempre para esta árvore que ele tanto amava, a Bíblia toda não faria nenhum sentido. Não haveria esperança nem para mim nem para você que está lendo. Junto das palavras de castigo e denúncia, o dono dessa planta brava sempre dava sinais de esperança.

Havia uma certa expectativa de que tudo daria certo a essa planta ainda que ela fosse cortada até ao chão. Algo foi escrito a esse respeito: “Mas, assim como o terebinto e o carvalho deixam o tronco quando são derrubados, assim a santa semente será o seu tronco” (Isaías 6:13). Há uma nota de esperança, mesmo em meio a aparente destruição.

Realmente havia esperança para mim e para você. A planta foi cortada, parecia morta, mas sobrou um toco. Ele poderia ser invisível a todos os empregados da vinha, mas ele estava lá e o dono da vinha sabia. Ele havia preparado tudo. Em sua ira, ele cortou a planta, mas deixou algo que só ele podia ver. Grande era a sabedoria do dono da vinha, desde o início!

Eu continuei lendo minha Bíblia de novo e de novo. Os mesmos textos sobre esta planta iam e vinham na minha cabeça. Aí eu entendi que, além de preservar parte da planta, o dono da vinha esteve descortinado seu plano desde muito cedo.

Isso não significa que tudo aconteceria do dia para a noite. Veja mais uma vez o que o dono da planta teimosa mandou seu servo dizer sobre ela: “… foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos” (Is 53.2).

Desconfiado, achei que se tratava de uma nova planta que brotou da anterior. Alguma parte da vinha brava e azeda estava se desenvolvendo. A despeito de ser uma fagulha de esperança, não era bela nem formosa; não chamava atenção, mas dessa vez vingaria.

Desde o início eu sabia que a planta era Israel, cuja semente havia sido Abraão. Mas e agora, quem era esta planta que estava subindo? Seria a mesma? Não faria sentido já que ela nunca rendeu nada de bom! Mas a semente, seria a mesma? Aí tive de concluir que, nesse caso, sim, afinal de contas, a raiz não fora arrancada, só a árvore havia sido cortada.

Meu curto raciocínio pensou noutro povo que iria surgir, mas não aconteceu isso. Quanto mais lia minha Bíblia, mais via o mesmo povo, a mesma árvore, os mesmos pecados, o mesmo “tudo”. Aí fui sendo conduzido pelos servos do dono da vinha a uma nova realidade. E se alguém, só um galho da árvore fosse perfeito e rendesse o fruto esperado pelo dono da vinha? Deixe eu “humanizar” o raciocínio… e se uma pessoa, um representante pudesse tomar o lugar de todo o povo! Seria possível isso?

Para o meu espanto, a resposta foi positiva. Essa plantinha que subiu de uma terra seca era aquele que representava toda a planta. Era bem menor. Tão simples que, qualquer um que o visse, não ligaria, na verdade, o desprezaria.

Ela poderia ser desprezada, mas seria abençoada mais que todas as outras plantas. Ela estaria plantada junto a correte de águas que, no devido tempo dá seu fruto e sua folhagem nunca seca, mesmo em tempos de escassez. Ela daria frutos em todo tempo porque seu prazer era meditar e obedecer ao seu Senhor (Sl 1). O contrário do que fizera a planta anterior.

Essa planta verdadeira, representante de todo o povo, nasceu e também começou a falar de plantas. Ele falou de grãos de mostarda que viram grandes árvores (Mt 13.31); discorreu sobre figueiras cujo dono se frustrou quando foi ver se havia fruto nela (Lc 13.6); falou sobre sementes jogadas em vários solos diferentes, mas que só vingaram num tipo de solo (Mt 13.3-9); ainda disse que as pessoas eram como plantas, algumas plantadas por seu Pai (o dono daquela antiga vinha) e outras não haviam sido plantadas por ele (Mt 15.13).

Dessa planta verdadeira nasceu uma nova planta, dessa vez mais forte. Ela ainda tem fraquezas, mas tem a promessa que não será destruída. O Novo Testamento a chama de Igreja de Jesus. E o próprio Jesus disse que ele é a videira verdadeira, o Pai dele – de quem falamos tanto –, continua sendo o agricultor

Assim como foi para a planta antiga, que não vingou, também há ameaças a nova planta. Diz-se que tenhamos cuidado para não sermos achados em falta, ou o agricultor nos quebraria, nos retiraria da videira, e nós secaríamos até a morte (Jo 15.1-6). Também há advertência sobre plantas parasitas, ou raízes de plantas ruins que podem grudar em nós, como fungos e cogumelos venenosos (Hb 12.15).

Na verdade, nós, que somos parte desta planta verdadeira, já fomos plantados com ele na semelhança de sua morte, seremos também achados com ele na semelhança de sua ressurreição (Rm 6.5). E somos consolados com as palavras dos novos servos agricultores que nos dizem que o nosso crescimento vem de Deus (1 Co 3.7).

Bem, eu e minha Bíblia continuamos juntos e, no final dela, descobri que a nova e perfeita planta, Jesus, tem muitos galhos que permanecerão nele para sempre: sua igreja. Quando estivermos para sempre com ele, lá estarão outras plantas, outras árvores. E a árvore do início da história também estará lá! Aquela árvore cujo fruto foi deixado de lado pelos nossos primeiros pais. A árvore da vida estará lá, no paraíso, no meio do jardim de Deus, como sempre esteve (Ap 2.7).

Estou feliz com minha Bíblia e, por ter descoberto que ela trata de um assunto bem simples: árvores, agricultura, jardins, do Grande Agricultor e de quão seguros podemos estar nele.

Dedico esses pensamentos aos alunos de Teologia Bíblica que devem prestar atenção as categorias que se repetem em toda História da Redenção: analogias, tipos e antítipos, símbolos, etc. Aqueles que estão aprendendo a ver os símbolos se repetindo na tríade Criação-Queda-Redenção; aos que ainda devem ver na Escrituras, padrões que nos ajudam a entender a mente dos autores e a intenção do Espírito de Deus. Caveat lector!

Murilo Morais

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