O problema do problema do mal.

Vivemos num mundo polarizado, cercado por dilemas e perguntas. É fato que nos encontramos num contexto de “guerra” constante – sobretudo no campo das ideias. Neste contexto, ideologias buscam, a todo instante, convencer-nos de suas verdades a respeito do mundo, suas interpretações da realidade. Por um lado, a esquerda superdimensiona o papel corruptor das instituições em detrimento da responsabilidade humana. Em resumo, acreditam que, se o homem nasce bom e é o meio que o corrompe, logo, a pobreza “justifica” a barbárie. Em outras palavras: a desigualdade social gera o mal. Nesta interpretação é óbvia a dificuldade de falar do uso da força, do poder e da espada por parte do Estado. Todavia, o extremo oposto enfatiza de tal modo a responsabilidade do indivíduo, que perde de vista o papel corruptor das instituições do Estado, do sistema político e econômico. Isto faz com que, num país como o nosso, candidatos à presidência prescrevam apenas a lei e a ordem – como se tudo se resumisse a prender, punir e matar – sem pensar nos motivos pelos quais alguns países desenvolvidos da Europa estão fechando presídios.

A cosmovisão cristã calvinista, porém, nos ensina a pensar duplo: a responsabilidade humana anda de mãos dadas com a soberania das esferas superiores, das quais não temos controle. O ser humano nasce mau, em pecado (Salmos 51). Portanto, todas as suas inclinações são más (Genesis 6.5). Não há um justo sequer (Romanos 3.10-17). Ora, a Bíblia nos ensina que todos pecaram (Romanos 3.23) e escolhem somente o que é mau aos olhos de Deus. Logo, não é tão simples quanto uma escolha, tampouco um produto do meio. O mundo inteiro está caído. No entanto, a soberania divina determina os meios para que o fim seja Deus glorificado em sua vontade plenamente satisfeita. Em outras palavras: nada foge da determinação do Senhor, que conduz a história considerando as escolhas morais de cada indivíduo. Um mistério eterno.

Jonas Madureira (pastor, teólogo e escritor reformado) discorre sobre a questão do mal no contexto da pós-modernidade. Segundo ele, o crente pós-moderno tem uma maneira muito equivocada de lidar com o “mal” que o sobrevém, exatamente por não conseguir tratar este problema como uma realidade misteriosa. Nos cultos das igrejas atuais só há tempo e espaço para a afirmação de triunfos e aparentes virtudes e certezas. Aparentes “vitórias”.

A experiência do “mal” – dos problemas, das ofensas, da vergonha proveniente das adversidades – nos coloca na situação mais humilhante que possamos nos encontrar. A grande virada do problema do mal se dá, na vida do verdadeiro cristão, não quando pensa: “por que Deus permitiu este mal em minha vida?”, mas quando “vira a chave”, e afirma: “Deus, por que o Senhor permite que o mal aconteça, sendo que, em si, ele é uma afronta direta a ti? Como um Deus santo permite que o mal lhe afronte? Por que permites que lhe coloquem uma coroa de espinhos? Por que permites que lhe humilhem com cuspe, com a ferida, com os cravos, com a cruz? Por que o Senhor se permite ser ofendido pelo mal?”.

Quando começamos a entender que o “problema do mal” não é apenas uma ofensa à humanidade, mas uma afronta ao próprio Deus, a teologia (como cosmovisão) começa a fazer muito mais sentido. E o exercício desta visão de mundo, à luz da Palavra de Deus, resulta em maturidade cristã: paramos de pensar que somos o centro do universo e começamos a refletir sobre o Deus que se permite ser alvo da ofensa. Seus planos são plenamente perfeitos, absolutos e concretos. Nenhum de seus planos pode ser frustrado (Jó 42.2). Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem conheceu a mente do Senhor? Quem se tornou seu conselheiro? (Romanos 11.33-35). Nossos problemas, dilemas e dúvidas não são razão para nos afastarmos de Cristo. Pelo contrário, são adubo para nossa fé. A fé verdadeira, que confia no Deus sábio, soberano e bom.

Pois “aquele que nem seu próprio Filho poupou, mas o entregou por nós, como não nos concederá juntamente com Ele, gratuitamente, todas as demais coisas?” (Romanos 8:32). A Ele a glória eternamente. Amém.

 

10 comentários Adicione o seu
  1. Nossos problemas, dilemas e dúvidas, não são razão para nos afastarmos de Cristo.
    Pelo contrário, são adubo para nossa fé. A fé verdadeira, que confia no Deus sábio, soberano e bom.
    Uau!!!
    Parabéns querido Lucas!
    Deus continue ministrando lindamente ao seu coração.❤

  2. Jesus nasça em seu coração que a presença do Altíssimo o acompanhe este ano e a beleza do santo espírito lhe da sabedoria certa de tomar Decisões em coração. Todos os seus desejos que deixaram para que se tornem realidade este final de ano não há nada impossível. A bênçãos de Deus decretando muitos anjos em torno de você. Te admiro Lucas Nóbrega

  3. É uma honra seu seu amigo e irmão em Cristo Jesus.
    Gostei muito do texto.
    Muitos crentes ainda não entenderam ainda que, enquanto estivermos neste mundo, vitórias podem ser festejadas, mas com uma taça na mão, e a outra empunhada por uma espada, escudo nas costas e elmo na cabeça, pois o adversário de nossas almas pode retornar quando houver uma ocasião oportuna como cita (Lc 4:13b).
    Lembrando que essas batalhas, não somente travamos externa, mas internamente, para nos dominarmos( Gl 5:23a).
    Graça e Paz, amigo!

  4. Parabéns Lucas! A cosmovisão da presente época poderia ser resumida nas fábulas atribuídas a Esopo do escorpião e do sapo que ignorou a natureza do animal venenoso ao dar lhe “carona” para atravessar o lago; e da coruja que fez amizade com a águia e esperava que seus filhotes estivessem seguros com a ave de rapina por perto. Em resumo, não considerar a perversidade e malignidade inerente ao ser humano é ser ingênuo como o sapo. E atribuir qualidades aos seres humanos que eles não possuem, é arriscar a segurança dos “filhotes” e depois reclamar porque eles foram devorados. Somente a cosmovisão cristã consegue enxergar o mundo sem ingenuidade, malícia, com segurança e equilíbrio. Paz!

    1. Sem dúvida, Murilo. Somos a todo instante confrontados com situações adversas. Agir (não somente saber) segundo a cosmovisão cristã é fundamental para vivermos uma vida equilibrada e segundo a Palavra de Deus! Obrigado pela contribuição. Grande abraço. Paz!

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