Como o Show entrou na Igreja?

Como o “show” entrou na igreja?

A Reforma Protestante ocorrida no século XVI foi um marco histórico não apenas para o ambiente religioso, mas também para a esfera social. Tornou-se um divisor de águas. O catolicismo romano viu-se afrontado pela iminente bipolarização religiosa. O mundo ocidental dividiu-se então em catolicismo e protestantismo. A partir dessa controvérsia, a fragmentação do cristianismo foi inevitável e constante, nos remetendo ao que hoje chamamos de pluralismo religioso cristão. A extrema facilidade que o protestantismo encontra em formar novas vertentes teológicas pode ter como uma das causas à inexistência de uma autoridade máxima colocada por Deus como representante d’Ele na Terra, e tendo poder indiscutível.

O catolicismo possui no papa a figura hierárquica maior, mantendo a totalidade normativa, ética e teológica, influenciando não somente a esfera religiosa, mas também a social. A falta dessa figura de autoridade no protestantismo  pode gerar uma excessiva abrangência no que condiz a normas e vertentes teológicas. Esse seria então o início da pluralidade no pensamento cristão, mais especificamente protestante. A partir da Reforma, diversas compreensões teológicas surgiram, algumas tornando-se mais influentes que outras, como o calvinismo. Este movimento, juntamente com outras religiões (catolicismo, religiões africanas (como o candomblé), islamismo, etc.) tornou o Brasil, de início, um país com diversidade de culto para futuramente gerar um país com diversas religiões sincréticas.

Apesar de cercado de sincretismos religiosos, o protestantismo histórico resistiu ao processo de fragmentação até 1910, ano em que os missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg introduziram uma nova vertente mística chamada pentecostalismo (primeiro movimento sincrético do protestantismo no Brasil). Esse movimento aderiu a práticas do misticismo católico medieval, introduzindo práticas estranhas ao protestantismo europeu que havia perdurado até então.

Essa nova forma de evangelicalismo foi a que mais se sobressaiu durante todo o século XX , porém, na década de 1970, um novo personagem surge para mudar o cenário cristão. “Edir Macedo, um ex bruxo, converte-se na Igreja de Nova Vida (igreja de confissão pentecostal) e após divergências internas, ele e seu cunhado Raimundo Romildo Soares (R.R. Soares) rompem com a denominação” , lançando as bases de uma nova igreja e de um novo pensamento chamado neopentecostalismo, melhor representado pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) da qual foi o fundador. Logo depois da fundação da IURD, R.R. Soares desliga-se da mesma e decide fundar uma nova igreja chamada Igreja Internacional da Graça de Deus. Essas duas denominações são os pilares do neopentecostalismo no Brasil e no mundo.

“O Edir Macedo é uma figura estranha, que causa impacto. Está disposto a morrer pelo que crê, mas também está disposto a tudo.” (FÁBIO, 1997, p. 302). A IURD tornou-se uma igreja polemizada em razão de possuir um líder envolvido em muitas controvérsias, “disposto a tudo”, capaz de sincretizar diferentes práticas religiosas:

“Havia de tudo um pouco: um grito de guerra (Jesus Cristo é o Senhor!) e um fervor na ação (Vamos ganhar o mundo para Jesus!), que eram genuinamente evangélicos; combinados a uma teologia católico-medieval (Deus não faz nada de graça, sem sacrifício, e o dinheiro é a moeda de troca entre o homem e as bênçãos divinas) e a uma simbologia afro-ameríndia, com farta utilização de elementos mágicos das religiões populares, tais como sal grosso, ramo de arruda, óleo sagrado, caminhos físicos pavimentados com sal, que abençoam aqueles que por eles caminham, e o oferecimento de dezenas de outros objetos feitos santos, que iam desde o estilingue de Davi até uma lavagem das mãos com o sangue de Cristo numa bacia.” (FÁBIO, 1997, p. 298 e 299).

“A IURD introduziu novas práticas no exercício da fé, além de acentuar práticas já consagradas pelo pentecostalismo, exaltando a invasão da espiritualidade mística centrada na experiência e depreciando a doutrina em favor do pragmatismo e do antropocentrismo no culto”. O misticismo neopentecostal é a mistura de figuras, objetos e símbolos para representarem coisas espirituais. Eles tomam figuras do Antigo e Novo Testamentos, as espiritualizam e as transformam em amuletos semelhantes aos usados pelas magias ‘pagãs’.  Como resultado, surgem fiéis colocando sal ao redor da casa para impedir a entrada de maus espíritos, bebendo copos de água abençoada, usando óleos consagrados de Jerusalém, entre outros, lembrando características da venda de indulgências na Idade Média tão criticada pelos teólogos protestantes.

Com o objetivo de trazer o “sagrado” para a vivência pessoal, estas práticas se estabelecem como pontos de contato entre o humano e o divino, práticas rejeitadas pelas igrejas protestantes históricas que, desde a Reforma Protestante, procuraram resgatar o caráter teocêntrico do culto, perdido séculos antes pelo catolicismo humanista que havia posto os próprios interesses internos como objeto de fé e adoração. Essa rejeição se deu pelo fato de tais práticas não apresentarem explicações (bíblico-teológicas) teológico – bíblicas. Apesar do esforço protestante histórico de manter um culto teocêntrico, esse esforço não foi bem sucedido em virtude da grande infiltração de ações carismáticas antropocêntricas que visavam o entretenimento de um público, perdendo o sentido venerador, adorador e santo do culto ortodoxo (tradicional), transformando-o em “show” da fé. Nesse estilo de culto, o líder pode levar dezenas e até centenas de pessoas ao êxtase, realizando “curas” e “entrevistas com demônios”, sempre com a intenção de promover espetáculos e de exaltar a imagem denominacional e pessoal (dos bispos e pastores, que se tornam o astro do show).

Apesar de toda polêmica que envolve tanto suas práticas como seus líderes, a IURD continua a se expandir, estando presente em quase 180 países do mundo . Isso explica porque tal movimento é considerado um fenômeno religioso, entretanto, não explica como ideias que carregam tanta discrepância, podem movimentar massas e produzir tal fé nas pessoas.

Com o intuito de tentar explicar como o culto protestante se tornou um evento de agitação de massa e venerador das necessidades pessoais concentrando seus holofotes nos seres humanos ao invés de centralizá-los em Deus, fizemos essa pesquisa sociológica na Igreja Universal, para discorrer sobre o surgimento da espetacularização do culto, suas formas, práticas e influências no âmbito sócio – religioso atual.

Autores:

Macla Alice é psicóloga e pós graduanda em psicologia criminal e forense.

Rev. Murilo Morais é Especialista em Teologia Bíblica – Universidade Presbiteriana Mackenzie – CPAJ. Mestre em Teologia do A.T. e Mestrando em Teologia Sistemática.

 

 

 

Referências Bibliográficas

BARBEIRO, Heródoto. História Geral, Ed. Moderna, São Paulo – SP, 1976.

FÁBIO, Caio. Confissões do Pastor, Ed. Record e Vida, 4ª edição, Rio de Janeiro – RJ e São Paulo – SP, 1997.

NICODEMUS, Augustus. O que estão fazendo com a igreja – Ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro, Ed. Mundo Cristão, 1ª edição, São Paulo – SP, 2008.

OLIVEIRA, José de. Breve História do Movimento Pentecostal – Dos Atos dos Apóstolos aos dias de hoje. Ed. CPAD, 1ª edição, Rio de Janeiro – RJ, 2003.

Igreja Universal do Reino de Deus Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em:http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_Universal_do_Reino_de_Deus Acesso: 03/06/2011 às 19:03.

História Disponível em: http://www.arcauniversal.com/iurd/historia/  Acesso: 03/06/2011 às 20:11.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *